domingo, 29 de julho de 2018

A LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA - ENSAIO



DA SÉRIE: ENSAIOS QUE NOS LEVAM A PENSAR
Subsérie: Ficção sobre contos paleoantropológicos

A LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA


43 mil anos (aC.) “África central sub-saariana”,
local  exato, indeterminado.
Capítulo 25 da obra “O Ser e o existir”

             O ataque e o desespero do sobrevivente!
1* O ataque foi fulminante, não havia como escapar de um grupo de quase dez leões e leoas famintas, rugindo na boca da caverna, o maior perigo eram as fêmeas, sempre mais numerosas, dava para notar que havia outro bando a rugir do lado de fora da caverna. Estava próximo do raiar do dia, e nesta hora o fogo estava quase apagado. Dentro da caverna havia um patamar das “provisões”, que ficava fora do alcance das feras, a dificuldade era chegar até ali, todos os guerreiros acordaram e desesperadamente tentando proteger suas famílias, se juntaram em bloco, e de lanças em punho tentavam rechaçar o primeiro ataque, uma lança matou o primeiro leão, o que atrasou por alguns minutos a ataque maciço das feras, ao todo eram nove homens, sendo a maioria jovens guerreiros com pouca experiência de luta, o restante eram velhos demais.  Os mais fortes e experientes se encontravam distantes, na caça. E só retornariam depois de mais de uma Lua! As mulheres, velhos e meninos se encolhiam no fundo da caverna. Uma fêmea pulou para dentro da caverna, esta foi morta imediatamente, o que retardou mais ainda o ataque maciço das feras famintas. Mas o cheiro do sangue dos animais mortos reacendeu o instinto de sobrevivência dos felinos famintos, quando os animais do outro bando, que estavam mais distantes da boca da caverna se uniram ao primeiro grupo a fome falou mais alto e o ataque foi fulminante, só um guerreiro conseguiu subir até o patamar das “provisões”, ficou ali por uma semana vendo todos seus familiares dia a dia sendo devorados pelos leões, era quase vinte animais de dois grupos que se uniram para o ataque, o que era raro, só acontecendo em casos de extrema fome. Depois que os leões se retiraram, as hienas chegaram, este guerreiro não tinha certeza! Mas parecia que ele tinha observado no meio da agonia, dentro da sua impotência, bem no fundo da caverna, pelo canto dos olhos, algumas mulheres torcendo os pescoços de seus próprios filhos menores.

LEMBRANÇAS INDELÉVEIS:
2* Aquelas cenas nunca mais saíram de sua memória. O nome deste caçador sobrevivente era Mbser Taisof que queria dizer “O terror dos leões”, todas as pessoas da tribo só possuíam um nome, o segundo nome só era adquirido pelos guerreiros depois que matavam seu primeiro leão. Durante o tempo que Mbser Taisof teve que ficar na caverna, (mais de uma semana), foi o suficiente para o mesmo pensar em como se proteger dentro de uma caverna! Quando pode sair, não sem antes, ter que matar duas Hienas velhas que chegaram depois da carnificina, não suportaria ficar ali por mais tempo, o ar que estava respirando tinha um odor insuportável. Depois que os leões terminaram o banquete, ainda se passou mais três dias, pois alguns leões ficaram por perto, tentando pegá-lo na plataforma, no entanto, desistiram e partiram deixando para trás aquele odor de morte e desespero. Ninguém na tribo sabia explicar o motivo pelo qual os leões, leopardos e hienas, em certas épocas do ano desapareciam completamente.

A VIAGEM
3* O jovem guerreiro trazia em sua cabeça um plano nunca antes arquitetado por nenhum de seus antepassados. Mbser Taisof por um longo período dormiu nas árvores, só voltou a dormir em cavernas, depois do retorno do restante de seu povo. Ele era ainda muito novo para conseguir ser levado a sério, e ouvido pelos mais velhos. Os anos iam se passando e Mbser Taisof mais amadurecia seu plano, a grande dificuldade de Mbser Taisof era a linguagem, era muito difícil detalhar ou explicitar seu plano aos demais componentes do grupo, assim, ele resolveu da forma mais inteligente possível, o impasse, convidou um seu irmão de armas mais novo que ele, e que lhe devia a vida por diversas vezes, eles o chamava Treb Naif (O comedor de feras) e conseguiu o consentimento da maioria para se retirar do bando por algum tempo com a desculpa de que ia arrumar umas fêmeas para ele e para seu amigo. Era comum os jovens de todos os grupamentos humanos saírem em busca de esposas, as moças de todos os grupamentos sabiam que um dia estes jovens apareceriam. Há tempos Mbser Taisof estava insatisfeito com o tipo de morada utilizada pelo seu povo, principalmente porque à noite ninguém conseguia dormir no interior da caverna, principalmente no verão, o calor era insuportável!

A VISÃO FRUTO DO DESESPERO:
4* O que Mbser Taisof imaginou e observou quando estava no patamar das provisões passando pela maior agonia de sua vida, foi o seguinte: a caverna onde moravam tinha os seguintes inconvenientes. Era calorenta, (o fogo aceso dia e noite aquecia as paredes da caverna), só tinha uma entrada, assim, não possuía uma saída, tinha a entrada muito grande, deixando entrar um bando de leões de uma só vez, estava muito próxima do território dos leões, estava muito longe da fonte de água, estava muito longe da zona de caça e das arvores frutíferas, e sobretudo por que o vento não entrava na caverna, o que significava que não havia saída para o ar nem para a fumaça, nem pela parte dos fundos, ou pelo teto da caverna, todo vento que entrava na caverna saia da mesma levando o cheiro da caça por ventura existente na plataforma de provisões, atraindo assim os leões, que vinham antes atrás da caça guiados pelo seu cheiro e não pelo cheiro dos homens, que eram por demais temidos pelos Leões. Tanto assim que só se uniam em um ataque daquele tipo do tipo acontecido na antiga caverna, se estivessem em crucial estado de fome.

EIS O QUE MBSER TAISOF E SEU AMIGO FIZERAM
PELA SOBREVIVÊNCIA DO SEU POVO.

5* A busca demorou diversos verões, os que ficaram até acharam que os mesmos, ou tinham morrido ou ficado morando nas terras de suas novas mulheres. Quando acharam o que procuravam numa região que era rica em cavernas a maioria com comunicação entre si, assim que descansaram e fizeram uma boa provisão de caça defumada, iniciaram as modificações na sua nova morada, primeiro fizeram uma limpeza completa na caverna, retirando restos de animais e as pedras sem utilidade imediata e que serviram para confecção do muro da entrada. Fecharam as saídas de nível baixo que podiam servir como entrada de animais selvagens, deixando somente uma bem alta que serviria como a saída do ar e da fumaça, os dois depois de muito esforço fecharam a entrada da caverna com um muro bem largo, reforçado e na vertical pela parte externa, todo de pedras até uma altura que não permitia a entrada de animais de porte, como o Leão, o Jaguar, e as Hienas, construiu-se dois estaleiros bem altos em madeira para armazenamento de alimentos e reserva de água em potes, os potes viriam das cavernas antigas, fizeram um estacado duplo que ia da boca da caverna até a fonte escavada na margem do rio, iniciaram os mesmos serviços em outra caverna próxima. Mas, assim que terminaram tais serviços partiram em busca do que restou do seu povo, que ocupavam várias cavernas, e que não passava de 150 almas, havia o costume dos que ficavam se reunirem numa única caverna, o certo é que, na caverna do ataque foram perdidos 7 guerreiros ainda jovens, e 2 velhos 4 mulheres com 4 filhos de mama, 5 meninos pequenos que não puderam acompanhar suas mães na expedição de caça, assim, na caverna se perdeu ao todo 22 pessoas, um sétimo dos componentes da Tribo.   

 

A RESISTÊNCIA PELO NOVO
6* Mbser Taisof e seu amigo “comedor de feras” ao cabo de cinco luas de cansativa viagem, finalmente chegaram ao seu antigo reduto, sendo que a caverna do massacre continuava desabitada, as primeiras perguntas que lhes fizeram foram pelas suas mulheres, ao que retrucaram, faltaram-nos a sabedoria, a coragem e a beleza dos que ficaram, assim voltamos solteiros. Desta forma foram muito bem recebidos deixando os motivos reais de sua demora para serem tratados mais tarde. Depois de decorridos uns dias, finalmente resolveram relatar suas atividades aos demais, para isto escolheram um dos anciãos do grupo, chamado Ataif Riarut, (Leão da baixada), por ser o mais respeitado, cordato e ponderado dos anciões para ser o interlocutor entre as partes, depois de expor minuciosamente as peripécias dos dois ao ancião, como se fora tudo fruto de um sonho ocorrido após o massacre da caverna, e ao verem que tinham o irrestrito apoio do velho Ataif Riarut. Autorizaram-no a ser o seu interlocutor e defensor da proposta de mudança do grupo para outro local, o que de maneira nenhuma seria aceita se fosse proposto por dois jovens inexperientes como eles! Após mais de uma lua de discussões que parecia não acabar mais, finalmente concordaram em mandar um grupo de adultos como observadores para verificar o local, e constatar a veracidade do que tinha sido proposto e relatado pelos dois jovens. Duas luas depois da partida finalmente retornaram, impressionados com o que viram e constataram, até aumentaram um pouco, só assim, foi que a comunidade resolveu apoiar o plano de se mudarem, no entanto alguns homens não apoiavam a idéia da mudança, e passaram a olhar os dois jovens como inimigos da tribo, só com a interferência de Ataif Riarut, os deixaram em paz.
      
AS MULHERES E SUA INFALÍVEL LÓGICA
7* Durante a marcha do grupo, os dois viajavam sempre mais atrás junto ao ancião temendo alguma represália dos descontentes com a mudança.  Bastava uma flechada e tudo continuava como antes, no Quartel de Abrantes, eram comuns os assassinatos, depois deste ocorrido ninguém viria em sua defesa, era a lógica usual, está feito, está feito, nada mais há para se fazer. Então por puro medo e precaução não se afastavam de Ataif Riarut. Como não havia chefes nestes pequenos grupos humanos, os anciões eram sempre muito respeitados, e decidiam quase tudo. A sabedoria dos anciões sempre salvava os grupos de apuros. Depois de penosa marcha e muitas ameaças veladas, finalmente chegaram ao local das cavernas.  Quando viram como eram boas as cavernas modificadas. Então a aprovação foi geral, até os descontentes sorriram para os jovens, depois de alguns dias o mais ferrenho adversário da mudança depositou aos pés dos jovens uma caça inteirinha, já sem o couro e sem as vísceras, como sinal de amizade e de desculpas pelo engano de seu julgamento. O imbróglio foi esquecido e os dois se tornaram os benfeitores do grupo. O que mais assustou os jovens foi a decisão das mulheres, de darem todas as suas filhas em idade de casamento ou não para os dois jovens, o que recusaram de pronto, pois sabiam que muitos jovens estavam de olho em algumas donzelas, se aceitassem seria morte na certa! Novamente o ancião Ataif Riarut veio em seu socorro, o ancião ponderou que seria muito difícil para os jovens manter tantas esposas, e ele mesmo escolheu duas jovens para os dois, a pendenga foi acertada e o assunto dado por encerrado. Os dois jovens perguntaram ao ancião, o que haveria ocorrido com as cabeças das mulheres? Ao que ele respondeu, as mulheres pouco estão ligando para vocês como homens, são ainda muito jovens, e lhes falta desenvolver a musculatura para suportar as agruras da caça e da guerra, no entanto, para elas vocês representam o que nenhum homem do grupo conseguiu representar, assim vocês representam no momento a segurança que ninguém soube oferecer aos jovens mortos pelos Leões, na maldita caverna aberta. Portanto, vocês segundo o pensamento e a opinião das mulheres representam toda a segurança do grupo, nada mais natural que elas como mães tentem vos entregar as jovens que são a esperança e o futuro da pequena tribo de que todos nós fazemos parte. Mbser Taisof e Treb Naif modificaram substancialmente a vida do seu povo.

8* As agruras e dificuldades por que passaram a espécie humana no passado, foram muitas, muito maiores que esta singela ficção tenta demonstrar. Nessa ficção observamos que os jovens, são essenciais para o desenvolvimento da humanidade, mas, sempre dependentes da sabedoria dos anciões.

9* Mesmo na era moderna, os atos de alguns seres humanos, são de grande importância para um número muito grande de outros seres humanos! Vejo como melhor exemplo: Mohandas Gandhi e Vinoba Bhave, libertadores da Índia do jugo inglês. Todos já ouviram falar de Gandhi, busquem por Vinoba Bhave na Wiki. Colhi no site de Carlos Aveline, este pequeno texto sobre o pensamento de Vinoba Bhave:

10* Aveline nos diz: A noção de que há interesses opostos entre diferentes seres humanos ou segmentos sociais é falsa, e sobre isso, Vinoba escreveu:

11* “O princípio de Sarvodaya é que o bem de todos está contido no bem de cada um. É impossível que o real interesse de qualquer pessoa entre em choque com os interesses dos outros. Não há oposição entre os reais interesses de qualquer comunidade, classe social ou país. A própria ideia de interesses em conflito é algo errado em si; o interesse de um ser humano é o mesmo interesse do outro, e não pode haver conflito. Mas se olharmos para o que é mau como se fosse o nosso bem, e pensarmos que o nosso bem consiste naquilo que é na verdade prejudicial, então os nossos “interesses” poderão entrar em conflito.” Vinoba Bhave.

                  Voltemos a nosso homem primitivo:
12* Tudo teve início há 4,5 milhões de anos na mãe África, na região onde hoje é o Kênia, no vale Turkana quando adquiriram o bipedalismo.

 13* A história escrita da humanidade não passa de 4,5 mil anos (aC.). No entanto, a história não escrita da humanidade pensante, teve com certeza, uma duração de mais ou menos 250 mil anos. Sobre como os nossos antepassados com tantas dificuldades sobreviveram, isto, não podemos saber!

14* Nós não podemos conceber e não temos como saber, como milagrosamente, chegaram até os dias hoje. Não é possível imaginar!

15* Foi somente a 250 mil anos que se tornaram no “homo sapiens”! E, Não temos como saber, como conseguiram passar por tais, agruras e dificuldades, os diversos grupos humanos viviam em plena selva, e com pouca tecnologia, sem armas modernas para se defender dos grupos de grandes predadores. Todos pensam que foi fácil, mas, certamente, não foi!

16* O grande problema dos sapiens foi o fato de que, ao adquirir paulatinamente o raciocínio, ao mesmo tempo perdeiam paulatinamente o instinto, naturalmente, o uso da lógica, faz o instinto adormecer e entrar em desuso. Ninguém se dá conta de que o fim do neolítico e o início da era dos metais, aconteceu somente há 6 mil anos atrás. Nossos antepassados se defendiam com armas de paus e pedras, sem o concurso da tecnologia dos metais.

17* Se sobrevivemos! É porquê! Existirá para sempre um resquício do latente instinto de sobrevivência do homem primitivo, ainda presente em nós! Pois, somente assim, sobreviveríamos.

18* Sempre existe um paradoxo a rondar os caminhos da humanidade!

19* Humildemente analisem a Grécia de hoje, e o número de seus componentes atuais e, qual modelo de pensamento criaram ontem! A Ilídada e a Odisséia!

20* Humildemente analisem a Índia de hoje, e o número de seus componentes atuais e, qual modelo de pensamento criaram ontem! O Bhagavad Gita e os Upanishads!

E assim caminha a humanidade.

E, lembrem-se, não podemos julgar os povos!
Nem os homens!
Todos são responsáveis por seus próprios atos.
A existência deles mesmos, cuida disso!

Edimilson Santos Silva Movér,
Vitória da Conquista, Bahia, maio de 2006
Ensaio revisado e atualizado em 2017
Moversol@yahoo.com.br
77-99197 9768

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