domingo, 29 de julho de 2018

A SERRA E O AGUÃO - POESIA




A SERRA E O AGUÃO                                             


Depois da seca de 1939,
Na década de 1940 aconteceu em Conquista um fato singular,
A Serra do Piripiri e o Aguão se apaixonaram com ardor,
Que paixão mais linda!
 A natureza parou para vê-los se amar,
O sonho pouco durou!
 A defesa sanitária acabou com o Aguão! E o sonho se findou...



(1) A Serra do Piripiri: 
- Sou Piripiri cá de cima e, digo para o Aguão lá embaixo,
Não fique tão triste assim! Que eu mando a nuvem chover,
Quando ela passar cá em cima eu faço dela um riacho,
A chuva vai cair em gotinhas e, pelo meu lombo escorrer.

(1) O Aguão:
- Sou o Aguão cá de baixo e respondo pra serra lá em cima,
Proceda assim minha amada, me mande as águas pra baixo,
Mande com cuidado e zelo, pois o poder público é sovina,
Não faz as obras necessárias e os pobres vão sofrer cá embaixo.

(2) A Serra do Piripiri:
- Não se preocupe meu amigo, vou cuidar disso com atenção,
Não mando chover de uma vez, pois vai fazer estragos na cidade,
Conquista é ainda pequena e o calçamento sofrerá com a erosão,
Outubro sendo o mês das chuvas, ainda vai chover de verdade.

(2) O Aguão:
- Oh! Serra formosa bonita e bela, a ti, um pedido vou fazer,
Sou solteiro e vivo sozinho, é meu sonho contigo me casar,
Desejo as núpcias com a serra, e juntos poder sempre viver,
Mande-me a resposta por carta, ou mande o trovão respostar.

(3) A Serra do Piripiri:
- Hoje é o meu dia de sorte, te vejo lá embaixo com paixão,
Vou semear sempre-vivas, e as flores te mandar em buquê,
Daqui de cima sempre esperei, que fizesses esta declaração,
Aguardo as águas chegarem, descerei e, te darei meu coração,
Quando as chuvas chegarem, pelo Verruga eu vou responder.

(3) O Aguão:
- A paixão de mim tomou conta, sonho antigo que magoa e fere,
As cartas levam os nossos sonhos, contendo todo nosso amor,
Mande logo uma carta pra mim, antes que eu me desespere,
Se o trovão vos faltar, use o riacho Verruga como teu portador.




(4) A Serra do Piripiri:
- Aguão te avisto lá na baixa, cá de cima a visão é de enlouquecer!
Vejo-te de qualquer ponto, lá resplandeces em beleza de espelhos,
No vosso corpo fica parte de mim, é a parte que eu mando pra te ver,
Padrinhos, o Marçal, e a Tromba! E a Caatinga para nos dar conselhos.

(4) O Aguão:
- Tenho notícias tristes pra te dar, o poder público vai comigo acabar,
Serra que eu amo, em silêncio despeço-me de ti, a dor chega a pungir  
Em conversa nas beiradas de mim, o João Ferreira veio me avisar,
Estou chorando de dor e tristeza, pois nunca mais vou poder sorrir.

(5) A Serra do Piripiri:
- Não desespere meu amor!  Por dentro de ti continuarei a passar,
Que tristeza me dá, nunca mais ver daqui de cima a tua imagem,
Se destruírem a tua barragem, continuarei as vossas terras molhar,
Estou presa aqui eu bem sei, não posso te acompanhar na viagem...

(5) O Aguão:                                                                    
- Rio abaixo vou-me embora, me despeço da Serra e da chuva chorando,
Os homens vão quebrar a barragem, não sabem o mal que me fazem!
Amor, esperanças perdidas, sonhos desfeitos, e nós inda nos amando,
As águas já vão embora! Saudades da Serra que eu tanto quero bem!

(6) A Serra do Piripiri:
- Vou morrer de tristeza cá em cima, sem você a vida não tem sentido,
Já começam a corroer o meu lombo, pelo cascalho a pedra e as areias,
Destino cruel, vão acabar comigo, nada poderei fazer sem um marido,
As águas que de ti se escoam, são as águas que correm em minhas veias.

(6) O Aguão:
- Sabendo que estou perto de morrer, eis a minha última recomendação:
Mande sempre as tuas lágrimas molhar as terras que me viram nascer,
Nunca mais vou ver a Serra do Piripiri! Estraçalharam o meu coração,
Minha alma se escoa pelo riacho do Poço Escuro, por ali vou me escorrer.

Desfecho:
As águas que descem da Serra do Piripiri passam sempre pelo leito do
Aguão, em desabalada carreira e nunca mais o velho Aguão teve a sorte
de renascer, a antiguíssima Serra do Piripiri embora ferida pela insanidade do homem, permanece de luto até hoje e nunca mais teve outro amante a ocupar o lugar do Aguão,
Sonhos desfeitos pela mão dos que se beneficiaram das águas do Aguão
Sonhos desfeitos pela mão dos que mutilam até hoje a velha Serra do Piripiri.



Ato final:
Fecham-se as cortinas lentamente! Ouve-se um choro pungente de um menino que passou toda sua infância brincando, tomando banho e pescando no velho Aguão!
Donde avistava ao longe a bela, majestosa e velha Serra do Piripiri.


Utopia de uma paixão sem fim entre dois “seres” que fizeram parte da minha infância. Saudades imorredouras dos meus tempos de criança, Saudades sem fim...


Vitória da Conquista, Ba. - 15 de dezembro de 2006
Edimilson Santos Silva Movér


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