sábado, 28 de julho de 2018

A VISAO DO HOMEM DA TRIBO NÔMADE - ENSAIO


DA SÉRIE: ENSAIOS QUE NOS LEVAM A PENSAR
Subsérie: Ficções do paleolítico superior

O SER E O EXISTIR CAPÍTULO 35

A VISAO DO HOMEM DA TRIBO NÔMADE

África central subsaariana, local indeterminado (23 mil anos a.C.).


A ESCASSEZ:
AS FRUTAS ACABARAM A CAÇA FUGIU E ATÉ O PEIXE SUMIU

1* Nossa tribo era composta por 86 famílias, 153 homens adultos, 176 mulheres adultas sendo 90 solteiras em idade de procriação, 226 meninos e meninas, e um conselho de 14 anciões que contavam as histórias do nosso povo e 21 anciãs, que eram as reais guardiãs das artes da olaria, dos cantos e danças de nosso povo. Éramos quase 600 pessoas divididas em quatro acampamentos próximos, (E milhares de preás, (marávamos nas baixadas da margem do grande rio), por mais que os comêssemos não acabavam nunca). Quando os preás sumiam era tempo de nos mudar, pois sabíamos que depois do desaparecimento dos preás, sempre vinha o tempo de doenças e de mortes. Não sabíamos há quanto tempo morávamos naquelas paragens uma lenda dizia que tínhamos surgido de dentro do barro das olarias e nunca mais voltamos pra dentro do barro por ser este barro muito frio. Também sabíamos que havia a uma mesma distância, o mar no poente e no ocidente assim morávamos na terra do meio, por isso nos denominamos de “Murunbongos” ou povo da terra do meio.  Comparando com as outras tribos éramos uma tribo realmente numerosa, tínhamos que partir, por isso fizemos contato com uma outra tribo de parentes antigos e amigos, avisando que íamos mudar para próximo das nascentes do rio das pedras. A escassez de frutas, caças e outros alimentos devido à prolongada seca aumentava a cada dia, mas o principal motivo da mudança premente era o fato de os animais terem escasseado demais, fugindo para campos distantes. Embora as mudanças da tribo fossem constantes permanecemos na região do rio das pedras por tempos sem conta. A tribo ou aldeia tinha seis locais para mudança, dois pouco usados, e só ficávamos num local por no máximo três verões. O normal era por um verão, ao mudarmos sempre ateávamos fogo em nossa aldeia, assim quando voltássemos, ela sempre estaria limpa. Sempre fazíamos aproximações com outras tribos, o motivo principal deste procedimento era para facilitar o casamento dos jovens, e reavivar os laços de amizade com as tribos da nossa raça e mesma língua, casando os jovens com os de fora evitava-se também os males do sangue, a milhares de verões fazíamos isto, nos mudar, era comum, mas desta vez éramos premidos pela escassez de alimentos, tanto é que todas as nossas quatro tribos irmãs  levantavam acampamento, e de qualquer maneira, já tínhamos um grande número de utensílios de uso comum para troca com as outras tribos, nossas mulheres eram especializadas em fabricação de utensílios de argila, principalmente as meninas que eram muito desenvolvidas na arte da olaria, sendo por isso, muito procuradas para formarem famílias com os rapazes de outras regiões. Fatores diversos nos obrigavam a nunca voltarmos no verão seguinte ao mesmo local da antiga aldeia, assim sempre fazíamos rodízios. Os animais passavam a temer o homem, e transmitiam isso aos descendentes, dificultando a caça, vinte dias de marcha era suficiente para encontrarmos locais completamente virgens. As mudanças eram sempre acertadas com antecedência com os chefes das outras tribos irmãs, só voltariam para o local das quatro aldeias depois de mais de 10 verões.

O COSTUME DO BANQUETE

2* Nunca havia guerra entre nossas tribos, só guerreávamos contra invasores que vinham de terras distantes, e isto era raro de acontecer, pelo simples motivo de quando nossas terras eram invadidas por estranhos, eles eram aprisionados, levados para a aldeia principal do chefe Teu, e comidos cozidos assados ou mesmos crus, sendo sempre soltos dois dos invasores para levarem a noticia às suas tribos, soltávamos sempre dois, pois assim um não podia mentir, o outro não confirmaria a mentira. Havendo terras sobrando para alimentar e abrigar um número muito grande de tribos, por maiores que fossem estas tribos, não víamos motivos de sermos invadidos por estranhos. Boa coisa é que eles não iam nos trazer. Assim simplesmente os comíamos, há muitas gerações que não havia guerra, este fato nos levava a não abandonar o hábito.

O SÁBIO

3* O chefe de nossa tribo era um homem de grande sabedoria, e se chamava Thi “o sábio” sendo filho do antigo chefe Dim que abdicou, elegendo seu filho Thi chefe da tribo e assim o chefe Dim assumiu a chefia do conselho de anciões. O motivo maior de formarmos grandes tribos era a defesa dos animais selvagens, um grande número de humanos os afastava definitivamente. As aldeias muito pequenas sempre eram visitadas pelos Leões e pelos Jaguares, depois que descobrimos isto nunca mais fomos molestados pelos predadores. Mudamo-nos para um local escolhido pelo chefe de outra tribo, era um local excelente a 23 dias de marcha Rio das Pedras acima, próximo a uma cachoeira na qual foi posto o nome do chefe que nos indicou o local (Cachoeira de Teteu). Assim nossos laços de amizade cresciam, pois o novo amigo e chefe se sentia responsável por nossa tribo. Era um jogo a que todas as tribos se prestavam e, usando de sabedoria se submetiam. Este costume levava às tribos uma paz feita pela confiança mútua e isto por um grande número de verões. No primeiro verão após a mudança não havia uma só preá, até que as crianças levavam algumas, mas desapareciam todas, não entendíamos por quê. Passados alguns verões elas retornavam pra valer, quando a caça era abundante ninguém se importava com os preás, mas quando a escassez chegava, os preás eram a salvação da tribo. Nosso povo era um povo forte e sadio e éramos exímios caçadores possuíamos arcos e flechas que usávamos envenenadas. (Conhecimento trazido pelo chefe Nhoc Tziu), lanças com pontas de sílex e muitos tipos de armadilhas.

A NOVA MORADA DA PEDRA DO MEL

4* Após um verão morando junto da cachoeira do chefe Teteu resolvemos nos mudar para um outro local, meia marcha rio acima, foi uma sorte, neste local existia uns paredões de pedra, aonde posteriormente descobrimos uma infinidade de moradas de abelhas produtoras de um excelente mel. Umas três luas após a mudança fizeram a festa da celebração da “morada nova” para dar sorte com o novo local escolhido, vieram muitos jovens das outras aldeias próximas, foram prometidos 25 casamentos que seriam celebrados em uma aldeia distante duas marchas, seria uma grande festa. Nesta aldeia moravam muitos parentes do nosso povo. Havia muito, o que comemorar, os preparativos para a festa duraram o tempo todo. A festa duraria uma lua inteira, o velho chefe desta aldeia ia abdicar em favor de um sobrinho, pois não tinha nenhum filho varão apto para assumir a chefia da aldeia. As abdicações eram comuns entre os povos de nossa raça faziam parte das tradições das tribos. Nesta festa houve um acidente no rio, um jovem brincando afogou outro jovem no poço das pedras, o problema foi resolvida da seguinte maneira! A família do morto deu três meninos já bem crescidos em pagamento e indenização à família do morto. O morto foi sepultado e o assunto esquecido, e por tradição as famílias passaram a ser consideradas parentes próximos. Estes costumes e tradições foram implantados por um antigo chefe que veio da terra do grande lago, da terra das grandes casas de pedra chamado Nhoc Tziu. E resolviam a maioria dos conflitos das tribos, também daí vinha a paz entre as tribos de nosso povo. Por sermos um povo caçador os machos de tribo tinham grande valor, mesmo por uma questão de sobrevivência do nosso povo. O antigo chefe exilado entre nós era o único com dois nomes Nhoc Tziu, ele ficou até sua morte como conselheiro da tribo, instituindo vários costumes adotados por todos por serem de extrema justiça e sabedoria, um destes costumes dizia respeito à divisão dos trabalhos comuns na tribo, como ensino e punição das crianças, cuidados com as grávidas, limpeza da aldeia, obrigações com os doentes, respeito aos idosos, simples ato de higiene, como não dejetar próximo ou dentro da área da aldeia. Não conheci este ancião, diziam que era preto como o carvão. Nosso povo era mais claro.     
     
A FESTA PELA MORTE DO ANCIÃO

5* Um ancião era tratado com muito respeito por nosso povo, sendo um depósito de conhecimento sabedoria, a quem todos recorriam para dirimir dúvidas e resolver pendengas, tão comuns em aldeias tão numerosas. Havia um ancião chamado Bilú de grande sabedoria e adorado pelas crianças, sendo o contador de estórias preferido dos jovens, vivendo adoentado desde algumas luas veio a falecer. O chefe Thi determinou pra regozijo da meninada um funeral pomposo para o tão querido Bilú, por motivos óbvios o corpo foi enterrado à noite às escondidas, um tronco de bananeira foi bem enrolado e amarrado com cipós em abundantes folhas de bananeiras, posto sobre uma armação de madeira em frente à choça do ancião e iniciaram os festejos que duraram três dias. Só os participantes da troca sabiam deste fato. Houve muita comida e danças, a mais esperada era a dança do “ancião” que era dançada à meia noite, por sorte houve a coincidência da lua cheia, era fincado um poste no meio da praça, as fogueiras eram apagadas, pois quando a sombra da luz lua passasse para o outro lado, tinha inicio a dança que ia até o dia raiar, quando o ancião morria distante da lua cheia o tronco de bananeira aguardava até o dia propício.   

O RETORNO A CASA ANTIGA

6*A maioria dos meninos não conhecia a antiga morada, já fazia 19 verões que tínhamos deixado nosso antigo povoado, o retorno estava marcado para o inicio do próximo verão, pois era a época das frutas, só diferenciávamos dois períodos, inverno e verão.  O chefe Thi já estava chegado nos anos e tinha resolvido abdicar em favor de um seu filho de um segundo casamento, chamado Dzim, não era o seu primogênito, mas era um líder nato, e todos estavam satisfeitos com a escolha inclusive o primogênito. Tínhamos noticias de tribos distantes que mudavam constantemente, não tinham ainda adotado o rodízio como costume, o ideal era não mudarmos, pois isto nos trazia muitos transtornos, no entanto era impossível ficarmos em um mesmo local. Antes de 5 verões apareciam pragas de todos os tipos, principalmente de insetos, começavam a aparecer doenças nas gengivas, nos pés, nas vistas, principalmente nos intestinos, assim éramos forçados a mudar e sempre com antecedência. Era o eterno viajar. E mesmo por que tudo que precisávamos, como caça, água, frutos, peixes e algumas plantas medicinais sempre eram encontrados em outras paragens. Não havia por que ficar.  Dizíamos que éramos um povo sem raízes.  

Claro! Quem acabou com o nomadismo foi a invenção da lavoura!

 7* Mas, As primeiras raízes dos povos foram fincadas com a lança, com o tacape, com o arco, a flecha e os punhos. E sobre tudo com a coragem dos líderes...




( Capítulo 35 da obra O SER E O EXISTIR))
25-02-06


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