segunda-feira, 30 de julho de 2018

ALMA MINHA - ESTUDO



 (Estudo comparado de três sonetos)            037


Alma Minha                      Luis Vaz de Camões

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algua cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

1525-1580
Alma Minha               Edimilson Santos Silva Movér

Alma minha cruel que te sumiste
Deixaste-me só com o sofrimento!
A viver na terra, todo um tormento,
De mui penar, o coração já não resiste.

Formei pra ti um novo lar e tu fugiste
De lá! Sorrindo de mim alegremente,
Para tornar-te naquele amor ausente
Maltratando meu Ser que a tudo assiste.

Nada mais tenho que possa oferecer-te
Fostes uma coisa ruim que se findou
Sem dor e sem mágoa por perder-te,

Oh! Bom Deus, que esta sorte me deixou,
Ajuda-me a não mais voltar a ver-te,
És o rio que não volta mais, pois já passou...

1940 -
Soneto 31                    Francesco Petrarca

Questa anima gentil che si diparte,
anzi tempo chiamata a l'altra vita,
se lassuso è quanto esser dê gradita,
terrà del ciel la piú beata parte.

S'ella riman fra 'l terzo lume et Marte,
fia la vista del sole scolorita,
poi ch'a mirar sua bellezza infinita
l'anime degne intorno a lei fien sparte.

Se si posasse sotto al quarto nido,
ciascuna de le tre saria men bella,
et essa sola avria la fama e 'l grido;

Nel quinto giro non habitrebbe ella;
ma se vola piú alto, assai mi fido
che con Giove sia vinta ogni altra stella.

1304-1374
Tradução do soneto 31 

Esta alma gentil que partiu,
antes do tempo, chamada à outra vida,
terá no céu segura acolhida
terá do céu a mais beata parte.

Se ela ficar entre a terceira luz e Marte,
será a vista do sol descolorida
depois virá, toda alma ao céu subida
em torno dela olhar sua beleza infinita

Se pousar abaixo do quarto ninho,
nenhuma das três será mais bela,
que esta só, espalhada a fama e o grito;

No quinto giro não chegara ela;
mas se voar mais alto, em muito confio
ser vencido Júpiter e cada outra estrela.

A diferença mais notável na composição dos sonetos (de Camões e Petrarca) está nos tercetos, e na truncagem de suas rimas, embora as quadras também sejam bem diferentes. O meu soneto tenta parecer com o soneto do poeta Luso, com certeza Camões conhecia o soneto de Petrarca, na realidade, tudo nos leva a crer que Camões ao compor seu soneto! Longe de sua mente estava o soneto de Petrarca. (A despeito da opinião de alguns críticos). Já o meu não! Ele embora tenha o sentido reverso do de Camões, neste foi literalmente inspirado. Camões lamenta a perda da amada, eu ao contrário agradeço e glorifico tal perda. Os sonetos de Petrarca conforme estudiosos da obra de Petrarca foram escritos em Latim, e no dialeto Toscano, língua pátria de Petrarca, A ausência de rima na tradução pode ser até mesmo devido a problemas de tradução!  Na realidade se se observar bem, somente os dois primeiros versos são parecidos, e tão somente parecidos...  Lembrar que Petrarca viveu na época do geocentrismo ptolomaico, onde o modelo celeste era o dos oito céus ou esferas sendo sete dos astros móveis, Sol, Mercúrio, Lua, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, e o último das estrelas fixas. Para melhor entender os versos do soneto 31 é necessário ter um conhecimento mínimo deste assunto.

Vitória da Conquista, Ba. - 09 de janeiro de 2007

Edimilson Santos Silva Movér

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