segunda-feira, 30 de julho de 2018

LEMBRANÇAS ANTIGAS - MÃE NENÉN - PROSA E POESIA



LEMBRANÇAS ANTIGAS: 
                   
MÃE NENÉM
Nossa avózinha,
Gramerines,
Alcapote.

RECORDAÇÕES PERENES DE UM TEMPO MARAVILHOSO E QUE JÁ SE FOI, A MAIORIA DOS PERSONAGENS QUE VIVENCIARAM ESTES FATOS, NÃO ESTÃO MAIS AQUI, A ESTES, A MINHA IMORREDOURA SAUDADE, E O MEU ETERNO RESPEITO.  Movér.

Óh! Casinha lá do alto da Boa Vista, saudosas lembranças eu tenho de ti! Foram tempos inesquecíveis da minha juventude. Lá, tive meus dias de reflexão e solidão, quando todos estavam fora! No período em que Elomar estava na faculdade em Salvador, todos sumiam, só permanecia eu e Mãe Neném.  A pergunta, que todos fazem quando ainda criança! (O que estou fazendo aqui?).  Esta pergunta, eu a fiz aos seis anos de idade, na Rua Nova, (atual Otávio Santos), foi naquele momento e, ali onde realmente me encontrei pela primeira vez como “Ser” material. Já, ali na casa de Mãe Neném foi onde iniciei meu desenvolvimento como “Ser” espiritual.

Recordações 1
O tempo passou e o velho pé de Garapiá se foi...
Passou também, o gato Faquir, o taboado da cisterna, o sabugueiro, o lindo, saudoso e charmoso pé de Flor de Santo Antônio. Só sei é que Santa Tereza tinha e tem razão! Tudo passa só Deus não muda!
Quando Mãe Neném chamava o gato de pichano, Elomar dizia: - o nome dele é Faquir Mãe! - Aí ela repetia como se fosse para decorar, - Faquí, Faquí, Faquí, Faquí, Faquí, - ela não utilizava o “r”, era muito engraçado, isto era. Ele passou a atender pelo nome de Faquir e morreu com este nome.

Recordações 2
Numa manhã, e num instante inesperado, fomos apresentados à frieza dos Correias, ao vivo...
Foram testemunhas: O pé de Flor de Santo Antônio florido, o macio pelego de carneiro pintado de amarelo sobre o couro branco, no taboado da cisterna umas almofadas sob as quais mantinha apoiada a cabeça, eu lia, se não me engano Ricardo III, e lia em voz alta! Onde o Duque de Roucester faz o anuncio do tema da peça, assim: - ...[O inverno do nosso descontentamento foi convertido agora em glorioso verão por este sol de York]... - Mãe Neném passava sabão nuns panos de prato numa “bacilha”, com ortoépia também ensinada por Elomar, que sentado num dos cantos do taboado da cisterna dedilhava uma música de Tárrega ou a Astúrias de Albéniz no violão,  (ou talvez, um exercício), não me recordo bem! Quando despontou no passadiço a negra Adilina, (como era chamada), com seu deambular oscilante. Mãe Neném observou! La vem Adilina com notícia ruim, só trás isso! Realmente, Adilina ao se aproximar do pé de Garapiá disse ainda de longe, - Nenén Lulu morreu! Ao que Mãe Neném retrucou! - Antes ele do que eu! - A explicação de Adilina veio a seguir, - não foi Lulu teu irmão não Neném! Foi Lulu de Zalinha, - e Mãe Neném zangada reclamou Ah! Vem dar notícia falsa Adilina! - Ali estava estampada com todas as cores a frieza característica dos Correias. Adilina, podia até se chamar de Adelina, Mãe Neném só a chamava de Adilina.

Os moradores:
Estes eram os moradores habituais e eventuais da casa de Mãe Neném.
Mãe Neném, Elomar, Gilson Figueira, Chico, Dima, Lupin meu irmão, às vezes o primo Nevirton  Correia, eu Movér,  e João Ferraz, o (João Ming), e se alguém disser que já passou uns dias por lá, podes acreditar! Os nossos primos e amigos da cidade sempre nos visitavam e, de vez em quando, realmente, dormiam por lá. A casa era uma verdadeira pousada, sempre tinha visitas. Tio “Ruru” sempre passava por lá, nunca em busca de conforto, mais, por economia, pois, tudo era 0800.
Os frequentadores do “Ogar de Gramerines” foram muitos, vou ver se consigo recordar o nome dos mesmos. Não sei o que foi feito de um chapéu chamado Gardelito? Há pouco tempo vi seus contornos na Casa do Médico.

Os frequentadores habituais eram:
Plácido Mendes, (Divão), Valter Figueira, (tio Valter) Bonifácio Andrade  (Bonifa), Vivaldinho (Lô), Evandro Mendes este, só às vezes, Diassis Ferraz, Virgílio Figueira Brito (Ninha), Geraldo Brito (Jade), Gilberto Gusmão (Giba), Jaimilton Gusmão, Eraldo Gusmão, Milton Balaião. Vou consultar Elomar, pois, tem mais gente!

Recordações 3
Moradores permanentes:
A casa de Mãe Neném sempre foi bem frequentada, principalmente pelos nossos irmãos animais. Tinha o gato Faquir, as galinhas no quintal, o louro na sua gaiolinha, às vezes Mãe Neném o punha sobre a porta da cozinha para ver a paisagem, teve a cobra gibóia que eu trouxe de Milagres e que Mãe Neném soltou, com medo de que engolisse as galinhas, sem falar nas pulgas, muriçocas, baratas, grilos escorpiões e afins, as cobras no mato, ratos e as indefectíveis lagartixas “batixós” nos muros do quintal, calangos e passarinhos comendo a comida das galinhas no quintal, no mangueiro havia muitos pássaros e, de todos os tipos, sempre perseguidos pelo Faquir. Ainda tinha umas caranguejeiras na despensa que de vez em quando davam as caras, depois sumiam nas tocas, Elomar não queria que as matássemos, mas vez por outra uma desaparecia! Mãe Neném as matava friamente! Ninguém observa, mas, num sítio mesmo dentro da cidade, com mais de um hectare, tem tudo isso citado acima.
Como vizinha, tinha a Dona Luzia e sua netinha, novinha ainda, linda de morrer, que morava ao lado na casinha de aluguel, e a negra Adilina que morava próximo a entrada do corredor perto da atual Rua Fernando Spínola. Era filha de escravos do nosso bisavô Joaquim Correia de Melo. Diziam que ela, a Adilina foi mucama de Mãe Neném quando ainda criança. Mãe Neném contava que quando chegou a notícia do fim da escravidão, puseram ela, que ainda era "pequenininha", em cima de uma mesa pra ver os negros dançarem.

O interior da casinha:
A casa era composta de três salas e três quartos, uma cozinha, uma despensa e um banheiro. E um quintal murado de 8 por 15 metros.  Havia um catre na primeira sala junto a cozinha, e uma mesa do outro lado e as cadeirinhas, mais duas salas com seus respectivos móveis, nem sei bem pra quê eles estavam lá, sem muita ou nenhuma serventia. Tinha o quarto da Mãe Neném, na mesma dimensão dos outros, sua cama era disposta de uma maneira, que mesmo ela estando deitada via toda movimentação na sala, e sem levantar pedia as músicas de Corinto, a tio Valter ou Elomar, para que as cantasse. No quarto da frente da casa, uma cama de casal, e uma penteadeira, para que servia? Ah! Mãe Neném sempre esperava a visita das netas casadas que de vez em quando apareciam.  Ou mesmo de alguma das filhas, menos tia Morena, ela não suportava o genro Mário Guimarães, o mata leitões. Tinha uma penteadeira sempre enfeitada por “Mi Abuela”. Mãe Neném sempre abria as janelas da casa, dizia ela, para o Sol entrar...
Lembro-me que sempre tinha um jarro com umas flores do campo ou as cheirosas flores do sabugueiro sobre a mesa da sala. O mangueiro de minha Avó tinha mato pra valer, já o quintal no fundo da casa estava sempre limpo, ia me esquecendo! As galinhas bicavam o mato, e faziam a limpeza. O telhado que sempre respingava fininho na gente quando chovia forte, principalmente nas chuvas de verão, nessa época eram terríveis as noites. Ali morava: Eu e Elomar permanentemente, Dima, Gilson, Nevirton, João Ferraz e Chico ocasionalmente. Lá só morava solteiros e boêmios, ocasionalmente alguma visita usava a cama de casal do quarto da frente, normalmente era usado pelos boêmios da madrugada quando voltavam do “Papai” (O Papai era o restaurante noturno do Tio Valter e era frequentado somente pelos boêmios e boêmias da cidade), o “Papai” era de propriedade de Valter Figueira, este deve estar cantando até hoje lá no céu, pedindo uma “pitadinha” de sal aos anjos, para limpar a voz.
No quarto do meio, duas camas de solteiro e um guarda-roupa, sempre vazio, ninguém tinha muita roupa, só o necessário, e às vezes nem o necessário! Por falar nisso teve um tempo de muita falta de grana, o Elomar ainda era estudante de arquitetura e eu não tinha ainda conseguido o emprego no DNER. Foi então que eu e Elomar abrimos uma lavanderia e ganhamos alguns trocados, não me recordo o nome que pusemos na lavanderia. Nossos fregueses habituais eram os primos ricos de Elomar. Teve a passagem de um Boliviano por lá, era colega de arquitetura de Elomar, mais uma história a ser contada, foi esse que chamava Mãe Neném de Mi Abuela.

A Cozinha:
Que relíquia era a cozinha da casa de nossa Avó! Ela tinha um pote de barro, uma pia, um armário, duas mesas onde comíamos, uma maior e outra menor, um baú recoberto de couro, e vários banquinhos, uma despensa, a das aranhas caranguejeiras, e um montão de poesia espalhada por todos os cantos daquela casinha, no piso de ladrilho de barro queimado em forno de lenha, nas paredes caiadas, nas telhas, era poesia em todo lugar, principalmente no ar, respirava-se poesia por todos os poros e, a sentíamos com todos os sentidos. As melhores músicas do tempo de rapaz de Elomar foram compostas na casa de Mãe Neném. E justamente na cozinha. Talvez por ser quentinha, Elomar ficava até altas horas da noite, isto, em tempo de inverno compondo na cozinha de Mãe Neném. “Faz um café pra nós Mau”, outras vezes ficava na sala, no catre. À noite nunca deixávamos a porta da cozinha aberta. Havia o perigo real de cobras entrarem na casa, a casa de Mãe Neném ficava dentro de um mangueiro com pasto e mato. À noite quando fazíamos alguma cantoria, (Mãe Neném era boêmia e saudosista por natureza), sempre pedia especialmente a tio Valter para cantar as músicas de Corinto, irmão falecido de tio Valter e tio de Elomar e Dima. E no centro da cozinha, bem centrado no sentido norte-sul tinha um reizinho. Era Carvãozinho o Monstro, (nome também posto por Elomar), era um fogão a lenha, que desobedecendo todas as leis da física funcionava que era uma beleza, era tão bom que nunca entupia a chaminé, coisa comum em fogões a lenha, nunca pifava, salvo raros e eventuais retoques feitos por um pedreiro amigo de Mãe Neném, a tiragem era perfeita, não fazia fumaça, nem nada, só cozinhava, “nunca foi pro conserto”, foi feito errado, este fogão tem muitas histórias, foi nele que Gramerines acendia o fogo pela manhã queimando as páginas dos cadernos com as poesias que Elomar fez quando ainda jovem. Elomar só descobriu quando tudo tinha virado fumaça. Gramerines é um dos apelidos carinhosos que Elomar tinha pra Mãe Neném, é a contração ou junção de Grand-mère, Elomar chamava a Avó de várias maneiras. Sempre amorosamente! Mi Abuela e Alcapote eram outros. E ao que se percebia ela gostava. Era chique!


Outros detalhes:
Do lado de dentro e do lado fora da casinha havia no ar, um quê de poesia, tinha poesia por todo lado, do lado de fora tinha o visual da casinha pintada de branco, com suas janelas sempre pintadas de azul, tinha a porteira, o passadiço do (Olha o porrete Chico!) o pé de “Flor de Santo Antônio” (Boungainville). E o velho e saudoso pé de Garapiá , a inesquecível vista para o Aguão, na baixada de Conquista, (o mesmo Aguão que se apaixonou pela Serra do Periperi). Do lado sudoeste tinha a casa do Senhor Acelino Pires de Andrade, de saudosa memória, tio de Elomar e pai do Dr. Josué Andrade do Hospital Samur. Foi nessa casa que o Elomar nasceu. Pois, antes era a sede da fazenda do seu avô materno o Senhor Virgílio Figueira. Ali era a famosa sede da fazenda Boa Vista. O Hospital Samur foi projetado por Elomar e construído nas terras da fazenda Boa Vista, bem próximo à antiga sede onde Elomar nasceu! Das figuras humanas que por esta casinha passaram, a mais singular e importante foi Dona Odília Santos Melo (Dona Neném) filha do Coronel Joaquim Correia de Melo e de Dona Raquel Santos de Andrade Melo, esta, era filha de Dona Ana Angélica (Sinhazina Santos) e do Sr. Manoel José Dos Santos Silva (Tenente Santos).  Dona Raquel, nossa bisavó era neta do famoso Padre Andrade. No passado, o Coronel Joaquim Correia de Melo foi um importante político e fazendeiro da região foi o primeiro Intendente da República, (prefeito), de Vitória da Conquista, isto em 1892-1896. Mãe Neném em sua juventude, dizem que era a moça mais bonita da cidade, na casa tinha um retrato dela quando jovem comprovando isso, depois dela vem o Elomar Figueira Melo, seu neto, arquiteto, cantor, músico e compositor, atualmente conhecido no Brasil inteiro, e boa parte do mundo, sendo o menos importante este humilde imitador de escriba que recorda estes fatos se não aos prantos, mas com inenarrável, imorredoura e imensa saudade.

Recordações 4
Nos tempos da casa de Mãe Neném, não foi só música, poesia e serenata não. Principalmente Elomar e eu, nesta época devorávamos com avidez os filósofos gregos, os renascentistas e os contemporâneos, lemos a Odisséia e a Ilíada de Homero, os pensadores da igreja, Santo Agostinho, Loyola e São Francisco de Assis, os poetas clássicos o romano Ovídio, e o italiano Petraca,  ali conheci a obra de Cícero, (os discursos) etc. Ganhamos de presente do Bonifa, Os Lusíadas de Camões, lemos os poetas parnasianos, franceses portugueses e brasileiros, eu muito voltado para a ciência, nestes tempos fiz meus primeiros contatos com a física relativista e quântica. Foi quando descobrimos um universo muito maior que o nosso entendimento e, e um universo em expansão! Foi nessa época que tivemos ideia da dimensão da nossa galáxia, na poesia lemos Raimundo Correia, Fagundes Varela, Olavo Bilac, Gonçalves Dias, Conhecemos o Junqueira Ayres, Fernando Pessoa, o Augusto dos Anjos, Castro Alves, Albino Forjaz Sampaio, tivemos nossos primeiros contatos com Kant, com Espinoza, Hegel, Nietzsche, Schopenhauer, Montaigne. A maioria destes livros eram de Adalmária Carvalho, estudante de Direito, na época namorada de Elomar, depois, noiva, depois esposa. Quanta saudade deste tempo. Nunca compramos um livro, parte do que líamos era emprestado das casas dos primos ricos, Elomar os tomava, eu era o encarregado de devolvê-los.    
Nestes tempos ocorreram fatos que merecem ser recordados:

Recordações 5
Numa noite de inverno, “as noites de inverno eram muito frias”, quando voltávamos de uma noitada lá pras bandas do “Papai” o Dima como sempre estripulento, propôs e resolvemos fazer o seguinte: Enquanto Elomar e Gilson seguiram para a casa de Mãe Neném com os violões, eu Dima e Chico passamos pela casa de Vovó Maricota para apanharmos uma cantora, pra preparar na casa de Mãe Neném e comermos lá pela madrugada, nenhum de nós tínhamos um vintém pra fazer uma boquinha na rua, era plena época das vacas magras, e bota magreza nisso, assim, passamos pela casa de Vovó Maricota, pegamos a cantora no poleiro, Chico a pôs com o pescoço debaixo da asa e debaixo do paletó, para a mesma não denunciar o afano, e partimos pra casa de Mãe Neném. Em lá chegando, acendemos “Carvãozinho o Monstro”, tomamos umas e outras, Elomar, Chico e Gilson cantaram algumas canções enquanto eu e Dima preparava a penosa. Como a noite não era mais criança, pois já estava perto da madrugada, resolvemos usar uma panela de pressão, presente de uma neta de Mãe Neném, de passagem para Brasília ainda em construção. Não tínhamos pratica com tal novidade, pusemos a Dalva de Oliveira na dita panela com todos os temperos, óleo e, com bastante água, e a pusemos em cima de “Carvãozinho o Monstro”, ocorre que o sono de boêmio é mais ladrão que cigano, e todos pegaram no sono, lá pelo raiar do dia acordamos com o apito da panela, acordamos sobressaltados abrimos a panela para ver a Dalva de Oliveira que nessa altura já  tinha virado canja, toda a carne tinha soltado dos ossos e virado uma sopa, foi a sopa de galinha mais gostosa que já comemos em toda nossa vida, e a comemos com farinha e pimenta, que gostosura! E esta foi a opinião geral. Tem outras! Da turma toda o mais estripulento era o Dima, era o Dom Quixote da turma, era apaixonado pela sua Dulcinéia do Toboso, sendo meu primo e irmão de Elomar.

Recordações 6
De certa feita estávamos numa cantoria no “Papai”. Eu e Dima resolvemos vir pra casa mais cedo pra comer alguma coisa, era no tempo das vacas magras, nunca vi vacas magras que durassem tanto, devia ser um rebanho enorme! Como dizia, voltamos eu e o Dima na frente, ficando desta feita no “Papai” o Elomar e o Chico (Israel Silveira). Dima me chamou para aprontar uma com o Elomar e Chico, Chegamos primeiro na casa de nossa Avó, vestimos vários paletós, um sobre o outro, pusemos chapéus, nos postamos nas proximidades do passadiço na entrada do mangueiro, a casa de Mãe Neném era num terreno grande de mais de um hectare, o passadiço ficava a quase cinquenta metros da casa, nos postamos um pelo lado de dentro e o outro pelo lado de fora da cerca do mangueiro, dentro do corredor, portando cada um uma tranca de janela como cacetes, quando Elomar e Chico se aproximaram levantamos as trancas e partimos pra cima deles, foi quando  Elomar gritou “olha o porrete Chico”, ai não aguentamos e foi um riso geral, Elomar nos admoestou dizendo; Vocês arriscaram a vida! Tio Valter ainda quis me emprestar o Negrão de Lima, que era o 38 de Tio Valter, o que poderia ter sido uma tragédia.

Recordações 7
Tem mais, o Chico sempre aprontava umas, de certa feita fomos fazer uma serenata no bairro Jurema para uma namorada de Bonifa ou do  Divão, não sei bem ao certo, quando na volta faltando uns cento e cinquenta metros para chegar na casa de Gramerines, o Chico caiu no chão “estrebuchando” e gemendo baixinho, o Bonifa ainda era estudante de medicina, não sei em qual ano, fez um exame rápido em Chico e disse a pressão tá normal e ele está respirando bem, vamos levá-lo pra casa de Mãe Neném, deve ser coma alcoólico! Os carros estavam distantes, em frente à casa de Mãe Neném, Chico sempre foi pesado, aí quase pelos oitenta quilos, foi transportado com alguma dificuldade, nos braços, por Gilson, Bonifa,  Elomar, Diasis Ferraz e pelo Divão, eu e Dima íamos na frente com os violões e a última garrafa de cachaça e uma lanterna clareando o caminho para que  os paramédicos não caíssem com o “doente” nas valetas existentes no caminho, e que não permitia a passagem de veículos, depois de muito sacrifício chegamos com o Chico e abrimos a porteira da entrada, foi quando Chico pulou no chão sorrindo correu e gritou (muito obrigado pessoal), todos correram atrás pra dar uma sova em Chico que caiu no mato e só apareceu depois dos ânimos serenarem, depois, foi uma risada só!   

Recordações 8
Fatos hilariantes e curiosos se passaram na casa de Mãe Neném, uma história famosa é a história do cortado de maxixe, vamos a ela! Certo dia estando no “Ogar” Elomar, Dima, Mover e Gilson, na hora do almoço Mãe Neném nos chama para almoçar, como sempre fazia, ela pôs o almoço na mesa maior da cozinha e ela foi almoçar numa outra mezinha onde ela costumava almoçar quando tinha muitos comensais na outra mesa, neste dia foi servido, feijão, arroz, macarrão, carne picadinha, verdura e um cortado de maxixe, do qual ninguém tocou, não foi nada combinado foi tudo sem maldade, só sei que o cortado de maxixe ficou intocado, à noite na janta voltou o bendito cortado, novamente ninguém tocou, também sem combinar nada, simplesmente o cortado voltou intacto. No outro dia no almoço apareceu uma frigideira na mesa, alguém levantou a parte dos ovos em neve e, olha lá debaixo o cortado de maxixe, novamente sem ninguém dizer nada a frigideira voltou intocada, aí já teve alguns comentários e alguns risos a respeito da transformação do cortado em frigideira! Só isso, e nada mais. No jantar deste dia, todo o pessoal já alertado, notou que havia uma farofa na mesa que logo à primeira vista descobriu-se que era nada mais nada menos que farofa de maxixe, ele mesmo o recusado, aí ninguém tocou mesmo e chegou a ser questionado! Será que Mãe Neném está querendo nos vencer pelo cansaço? No outro dia no almoço não é que Mãe Neném tornou a servir o já antiquíssimo cortado de maxixe ainda como farofa, e desta vez também ninguém tocou na múmia do maxixe. Neste mesmo dia, na parte da tarde todos fomos pra rua e voltamos já de noite e roncando de fome, era o tempo das vacas magras e que nunca acabava o rebanho!  Aí, Mãe Neném sempre ardilosa nos aprontou uma, simplesmente ao chegarmos ela foi logo avisando. Hoje não tem janta não, tem é uma sopa rica, (feita com tudo que sobrou do almoço), e lá dentro da sopa descobrimos para nosso espanto a presença do maxixe, vestígio do antiquíssimo cortado de maxixe que tivemos que comer com nosso orgulho e tudo. Mãe Neném era única! Venceu pelo cansaço a todos nós! Nada sei da passagem do Lousada (o boliviano) que chamava Mãe Neném de “Mi Abuela”, e a casa de “Ogar de Gramerines”, esteve por lá num período em que eu estava ausente, creio que na fazenda de tio Nenenzinho.

Recordações 9
Na época a fome por poesia era tamanha que chegávamos a ir pras bandas das Caatingas distante 20 quilômetros de Conquista, passando por Iguá para cantar vendo o por do sol mais lindo do mundo, e que naturalmente está lá até hoje! Deslocava uma verdadeira caravana até as bordas do alto das Caatingas, na estrada de Angicos a Belo campo, onde o Sol se punha à esquerda da direção do oeste, no verão o entardecer é lindo de morrer! Íamos somente para ouvir Elomar, Chico tio Valter e Gilson Figueira cantar, quando escurecia voltávamos direto para a fazenda do Divão, ou para o Angicos, para o bar do saudoso João Bunda e a cantoria continuava até altas horas da madrugada, ou até o dia raiar. Na venda do João Bunda, não sei quem foi o primeiro, criou-se o costume de: depois de algum tempo de canto, bate-papo, e quase no fim da cantoria, os participantes rolarem no piso de cimento da venda do João Bunda, o que ficou conhecido como (Clube dos Roladores), este clube ficou famoso na cidade! Todos que faziam parte das cantorias no Angicos rolavam sem o menor pudor, e com prazer!
Vou elencar a turma de roladores, como registro histórico, Eu, Elomar Figueira, “Israel Silveira, Chico”, Gilson Figueira, “Edimar Figueira, Dima” Divão Mendes, Dr. Bonifácio Andrade, Diassis Ferraz, Vivaldinho Mendes, Vivi Mendes, Dr, Cana Brasil, Ninha Brito, Geraldo Brito, Valter Figueira, “Gilberto Gusmão, Giba’ Jaymilton Gusmão, Milton Balaião, João Ferraz, Ming, Evandro Mendes, falta gente, depois eu completo a lista.

Edimilson Santos Silva Movér
Vitória da Conquista, 29 de outubro de 2006
Atualizado em julho de 2016
77-99197-9768


Em 2007 fiz esta poesia em homenagem às pessoas que participaram daquelas noitadas, e principalmente em homenagem à eterna lembrança da nossa avó,  Odília dos Santos Melo, Mãe Neném, avó minha, de Elomar, e de Dima, mas era tratado por todos como avó.


MAIS LEMBRANÇAS ANTIGAS                                       

PARA  NOSSA AVÓZINHA, MÃE NENÉM
LEMBRANÇAS DOS TEMPOS GRAMERINIANOS.

Bacilha! Bacilha! Bacilha! Vem comer! Meninos...
Odília dos Santos Melo,
Mãe Neném,
Gramerines,
Alcapote.

Recordações antigas, oh! Sonhos fugidios...
Distantes madrugadas de poesias e canções,
Revisitar estes caminhos, eis meus desafios,
Todos me trazem velhas, e saudosas visões...

Poetas bardos, cantando nas noites amigas,
“El caminito” solitário, e Mãe Neném a sorrir,
Elomar, Gilson e Chico e as canções antigas,
Saudades de ti “PAPAI”, no teu triste partir...

Tardes de belezas infinitas... Na boca da caatinga,
Oh! Angicos, dos velhos tempos dos roladores.
“Mi Abuela”, poesia, canções e a melhor pinga,
Lembranças vivas, saudades de velhos amores...

Lembranças do Mongoió, do Giba Gusmão,
Sorri o Jaimilton, o Tiãozinho e sua galhardia, 
Rolar lá no Angicos, ou na fazenda do primo Divão,
Tardes imorredouras, lá na caatinga, no final do dia...

O tempo se desfaz na mágica do abracadabra,
Movér, Gilson, Dima e Ariosto, na fase romântica! 
Beco de Sabina, a arquitetura, tua nova namorada,
Poesia, filósofos gregos, música e física quântica,

Elomar e o violão, Chico e Gói, três cantores,
Vivi, Ninha, Jade, o Gordo e o Diassís Ferraz,
Bonifa, só pediam Sidérea, ávidos de amores...
Milton Balaião com seus tições, uma guerra faz!




Mãe Neném alegre, pedindo a música de Corinto,
Uma pitada de sal, tio Valter em falsete a atendia,
Daria minha vida para voltar atrás, é isto que sinto!
Altas madrugadas chegando da rua, quanta poesia...

Velhas expedições, veem-me em lembrança abrupta!
A boia de pneu, o poço da Pratinha meio assombroso!
Tio Bilu, velho valente, sonhava em entrar na gruta!
Na Kombi, a raiva contida, “páraaa! Estou parôso”!

A sua carroça, e os ovos da galinha do João Bunda,
O velório do Anjo, a ladainha e a dança, lá no final,
A expedição aurífera, a labuta lá na gruta funda,
A beleza da poesia, a nave, como tua cova sideral...

“Gardelito” em noites de cantoria lá no “PAPAI”,
Saudade imensa, dos antigos tempos do garapiá!
Oh! Nave espacial, negrão de lima, me desculpai,
Beco de Luzia, olha o porrete Chico, vi arrepiar...

O taboado da cisterna, o gato Faquir mia na cozinha!
O Louro na porta, Alcapote, e as poesias queimadas!...
O aluguel do pasto, aquela casa, e a nossa Avózinha!
Saudade infinita, daquelas belas e benditas madrugadas...


Edimilson Santos Silva Movér
Vitória da Conquista, Bahia - 15 de abril de 2007


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