segunda-feira, 30 de julho de 2018

O RITUAL DA MORTE - PROSA POÉTICA



O RITUAL DA MORTE                                

Este pecador se escondeu e não disse uma só palavra jamais,
A morte o levou para pagar todos os pecados lá nos umbrais,
Aprendam a lição! Oh! Vós loucos infelizes e, que mais pecais,
nem no fundo dos mares, nem nos altos do céu,
 nem dentro do chão vos escondais!
Deixai cá fora toda a esperança, oh! Vós que entrais!

A velha da foice bate na porta de uma Igreja nos tempos medievais,

Tum! Tum! Tum!

O clérigo:

 responde de dentro da Igreja,
- Quem bate
Por três vezes!

A velha da foice:

- Sou eu, a morte, em busca de uma alma pecadora!

O clérigo:

- És tu, ingrata ceifadora?
Indiferentes, nós escutamos o teu bater!
Siga em frente,
Bate em outra porta,
Oh! Andrajosa e vil mutiladora,

A velha da foice:

- Não se assustem!
Vós que cuidai “aquilo” com zelo,
“Aquilo” só vai depois de morta!

O clérigo:

- Estás cega? Não viste o sagrado selo?
Nesta casa não entrais oh! Asqueroso horror!
Passai ao largo peçonha maldita,
Este lugar é santo, não entrais aqui!
Este símbolo é o Santo dos Santos!
O que vedes na porta é o selo de David...
Aqui é terra sagrada temos o que fazer,
Nesta casa guardam-se os mandamentos do Senhor...
Use a tua foice nas adjacências!
Todos aqui ainda têm muito que viver,
Se dirija a outras paragens,
Ou serás condenada a pagar dez mil penitências.

A velha da foice:

Tum! Tum! Tum!

O clérigo:

- Quem insiste em bater?
Aqui só estamos nós os homens do Senhor!
E um rico e respeitável fidalgo,
De veneráveis barbas, conosco a rezar!
Que quereis repetindo o teu bater?

A velha da foice:

- Sei que ele é um rico usurário,
E que a vós pagou, para o selo da sua religião,
Em vossa porta estampar,
Vosso símbolo é a cruz,
E por isso um dia terás que pagar,

O clérigo:

- Isto é blasfêmia! Temos direito a dar nossa benção,
A todos, "indiscriminadamente"
"Independentemente" da sua religião!

A velha da foice:

- Aí, alguém se esconde sem ter o direito de se esconder!
Cumpro o meu dever!
Eu vim buscar o que me pertence,
Sem ao sagrado recinto querer ofender!!!...

O clérigo:

- Se insistes tanto, alguma razão deve ter!
Diga o nome do pobre desvalido e sem sorte,
Quem vieste buscar e diga o por quê?

A velha da foice:

- O nome não importa mais! Quem o busca é a morte!
Para onde ele vai ninguém tem nome,
Lá o apelido dele será “aquilo” e nada mais!
Quero o velho barbudo que atrás da porta se esconde
Lá tem azeite quente e enxofre, ele não passará fome!
Estou esperando aqui fora!
Sei que aí não posso entrar!
Ainda bato mais três vezes!
Na primeira ele se deita,
Dê-lhe a extrema unção,
Na segunda ele sai sem o corpo, o corpo não quero não!
Na terceira a alma penada comigo vai
Pecador! Despojais a ti de toda esperança!
De agora em diante!
Chegou tua hora...
Não ouviste Dante?

O clérigo:

- Aguardai aí fora, peçonha maldita!
Vamos encomendar a alma do sofredor!!!...

A velha da foice:

Tum! Primeiro bater
- Preparai bem este pecador,
Pra onde ele vai não há refrigério,
Eu só levo a alma, lá há somente dor!
Podem ficar com o corpo para o cemitério!

O clérigo:

- Tenha paciência coisa indecente!
Diremos uma missa para o pobre homem,
Ainda em vida e de corpo presente!

A velha da foice:

- Estas coisas já não importam mais,
Recebi ordens severas,
Tenho que levar o delinquente!

O clérigo:

- Estamos a encomendar a alma nos rituais,
Falta mil ladainhas, dois mil terços,
Cinco mil salve Rainhas,
Vinte mil esconjuros de frente pra trás!
São coisas que não acabam mais...

A velha da foice:

Tum! Segundo bater
- Escutei calada os xingamentos!
Os pecados dele não se paga com rituais,
Quero sem delongas os meus emolumentos...
Dessas coisas todas vós o dispensais!
O que ele fez, vai ter que acertar,
Não discutais comigo, oh! Vós da cabeça coroada,
E também vazia!
Não sabeis meu nome? Dante me elogiou!
E me chamou de Harpia!

O clérigo:

- O venerável homem está vivo! Assim não o podeis levar!

A velha da foice:

- Não o levo vivo
O corpo é pesado
Só levo a alma, esta vai comigo,
Os pecados dele não se paga com rituais,
Não tenho mais tempo e não espero mais,
Já disse, fiquem com o corpo e o enterrai,
O que ele fez só se paga além dos umbrais,
Na terceira batida, ele comigo vai!

A velha da foice:

Tum! Terceiro e último bater
                                     
E lá se foi a alma para as profundezas infernais...
Ranger de dentes, caldeirões de azeite quente,
Água fervente, espetos quentes e coisas e tais!
Puro sofrer, e nem um socorro para o pobre vivente! 

Vitória da Conquista, Ba. - 01 de março de 2007
Edimilson Santos Silva Movér


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