quinta-feira, 23 de agosto de 2018

JIDDU KRISHNAMURTI E O AUTOCONHECIMENTO - ENSAIO




DA SÉRIE: ENSAIOS QUE NOS LEVAM A PENSAR
Da subsérie: Grandes pensadores da humanidade.

JIDDU KRISHNAMURTI E O AUTOCONHECIMENTO

1* Nos infelizes séculos XIX e XX, pois, foi nestes séculos dos horrores, que os homens, com somente duas tecnologias. “a tecnologia do uso desenfreado do petróleo, com o primeiro poço de petróleo perfurado no Texas em (1883), e a tecnologia termo/nuclear, desenvolvida pelo projeto Manhattan (1941-45)”. Unicamente, com estas duas tecnologias, os "sapiens" conseguiram, "método e poder" para   aniquilar completamente a humanidade.


2* O homem é um animal sem memória! Estamos no início século XXI, e ninguém mais se lembra das Guerras ocorridas no SXIX, Vou enumerá-las para refrescar essa memória, aparentemente inexistente! Eis somente os nomes das guerras! Sem cronologias nem número de mortos, nem outros dados: Guerras NapoleónicasRevolução do Texas Guerra Austro-Prussiana;‎ Guerras BerberesExpedição punitiva de BeninGuerra dos BôeresGuerra Civil PortuguesaGuerra da Independência do BrasilGuerra das LaranjasPrimeira Guerra Berberesca; Guerra Hispano-AmericanaPrimeira Guerra de MatabeleSegunda Guerra de Matabele; As pequenas escaramuças não são citadas. Deixei por último a Guerra dos Trezentos e Trinta e Cinco anos, por ter sido a guerra que mais durou na história da humanidade. No entanto foi a única Guerra em que não se disparou um único tiro, ou morreu sequer um soldado, ela aconteceu por todo este tempo, e foi declarada no ano de 1671 entre as ilhas independentes Scilly, localizadas na costa sudoeste da Grâ Bretanha   até hoje elas são habitadas pelos descendentes do povo Celta, a guerra foi declarada pela República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos, foi um estado de guerra teórico, esta Guerra foi declarada em 1671 e a declaração da paz só aconteceu em 1986. Os Cro-Magnons, nominados por Linnaeus de “homo sapiens sapiens” e que hoje habitam todo o planeta, e que ao que parece são destituidos de memória! Mas só parece! Ele registra tudo, mas, suas ações nunca levam em consideração os atos danosos praticados por eles mesmos no passado. Daí, a burrice continua. Estas guerras aconteceram sem o uso dos derivados do cumbustíveis fósseis! Os motores a diesel só apareceria nas duas últimas décadas do  sXIX, e só a partir do início do nefasto sXX as máquinas de Guera tocadas por combustíveis derivados do petróleo. Primeiro nos fins do SXIX descobriram como poderiam fazer uso desenfreado dos derivados do petróleo! E com isso estamos matando o planeta, e o pior, com a tecnologia nuclear”, descobriram como poderiam aniquilar completamente a humanidade, parece que para compensar! Nestes séculos, indiscutivelmente, passaram por este planeta seres singulares. Neste ensaio, cito e trato somente da pessoa e da obra de Jiddu Krishnamurti, sobre o tema a que se refere o título: (Autoconhecimento). Me referirei oportunamente, às vidas e às obras de Helena Petrovna Blavatsky, (1831-1891), Henry Steel Olcott, (1832-1907), William Quan Judge, (1851-1896), e Pietro Ubaldi (1886-1972). Este último chegou a morar aqui no Brasil, em São Paulo por 12 anos, Ubaldi nos deixou a obra: “A GRANDE SÍNTESE”. Os três do centro fundaram em 1875 a Sociedade Teosófica, também, pretendo, oportunamente abordar o assunto “Sociedade Teosófica” como um todo. O primeiro, e de que aqui estou a tratar é o Indiano, Jiddu Krishnamurti nascido em 1895 na cidade de Madanapalle, no sul da Índia, e falecido em 1986 na cidade de Ojai, na Califórnia, Estados Unidos, tendo sido educado na Inglaterra. Jiddu não tinha ligação filosófica/religiosa com nenhuma organização, nem mesmo com a Sociedade Teosófica, nem se apresentava em suas conferências com títulos acadêmicos, ou como chefe de seita ou de organização. Foi um dos maiores pensadores do século XX.

3* Estas páginas que vos apresento foram compiladas por Mary Lutyens de escritos e de fitas gravadas de algumas palestras proferidos em diversas conferências por Krishnamurti, sendo que a ordem dos capítulos foi escolhida pela própria Mary Lutyens, e isto foi feito com autorização de Krishnamurti, sendo publicadas em 1969 no livro Freedom From The Known, trata-se de uma pequena brochura com somente 101 páginas de “sabedoria ímpar”, no Brasil foi publicado pela Editora Cultrix, com o título: Liberte-se do Passado. Recebi esta obra como um presente, do amigo e espiritualista Rildo Dias, este é um dos vários livros de Krishnamurti que ainda desconhecia, então resolvi compartilhar esta abordagem do Krishnamurti, da atual “vida humana”, com meus poucos leitores. Peço aos leitores, que se possível analisem, capítulo por capítulo, se para tanto vosso tempo, o permitir!!!... A maneira de Krishnamurti falar, escrever, divulgar e expor suas ideias, são de uma simplicidade e clareza nunca dantes utilizada por outro pensador! Qualquer mente mediana como a minha, consegue entendê-lo com a maior facilidade, tanto que sua obra dispensa interpretações, comentários ou explicações.

4* No entanto, por se tratar da mente de um indiano, nalguns pontos, torna-se necessário pequenas explicações. Peço encarecidamente e humildemente aos meus poucos e inteligentes leitores que me ajudem a analisar, cuidadosamente e profundamente o raciocínio de Krishnamurti, ponto por ponto, vírgula por vírgula, palavra por palavra, frase por frase, contidas nestas dez páginas. No livro, o texto deste “capítulo I” vai da página nove a dezoito, e trata unicamente do autoconhecimento, foi o tema deste 1º Capítulo que me levou a escrever este ensaio. No “intermezzo” resolvi que seria mais prático transcrever estas páginas, levando-as integralmente, ao conhecimento de meus pacientes e inteligentes leitores. Pois, analisá-las, talvez, meu parco entendimento, não conseguisse fazê-lo a contento. Encontro o fundamento necessário para dar suporte a proposta contida neste texto (deste marcador de leitura 3*) no fato, de que grande parte dos leitores dificilmente terão oportunidade de ler todos as 48 obras de Jiddu publicadas em português, e as que ainda não o foram, fica mais difícil ainda. A realidade simplesmente é esta. Jiddu já se foi, mas, suas obras estão disponíveis para aqueles que as buscarem.

5* Neste ensaio apresento suas dez páginas, literalmente separadas, para facilitar a apreciação que faremos de cada texto contido em cada página, (isto quando necessário), e o faremos, no geral e no particular. Portanto, aqui não analisarei os pensamentos e proposições de Krishnamurti. No entanto, isto, o faremos juntos, eu e meus pacientes e inteligentes leitores. No próximo ensaio apresentarei as outras onze páginas do segundo capítulo. Creio, embora creia, que “crer”, nunca nos leve a nada, no entanto, embora não utilize a maiêutica, espero conseguir despertar a “intelligentzia” de todos os leitores. Na realidade, se um único leitor ler com atenção estas poucas páginas, e conseguir entender, por pouco que seja, um mínimo da essência do raciocínio de Krishnamurti sobre o autoconhecimento, meu objetivo foi alcançado! Mas, quem usufruirá disto, será este único leitor! Os outros continuarão como sempre foram, não mudarão seu “status quo”.

Para diferençar as páginas. Toda a transcrição das dez páginas será em fonte “Batang” 14, em negrito, sendo meus singelos comentários em fonte “Verdana” 12, também em negrito, Edimilson Santos Silva Movér, em 22/05/2014

              Vou transcrever algumas de minhas antigas observações Movér
6* “Os ocidentais são interessantes! Nunca buscam as essências das “coisas”. O pior, é que isso modula o pensamento ocidental. Porque será que não buscam? E não venham me dizer que não é verdade. Diderot, já reconhecia e chamava a atenção para este fato, lá no século XVIII. - “E vós falais de essências, pobres filósofos” Diderot. - Ele pedia que se observasse no mínimo a massa de desvalidos da França. A essência vazia buscada pelos filósofos tornava-se “desprezível” frente as agruras por que passava o povo francês na época, e naquele momento. A França passava por momentos terríveis, e alguns filósofos falavam em essências, quando o momento pedia ação! Isto está em “O Sonho de D’Alembert”.

7* Estou consciente de que: A leitura de um texto qualquer, por si mesma, não altere a “visão da existência imediata” ou suas crenças, e muito menos a existência de um “Ser”! Ou altere o próprio “Ser”. A única alteração possível num “Ser”, seria no seu entendimento, ou no que chamo de “sua visão de mundo”! Os “Seres” em si, não se alteram nunca. A única mudança possível seria em sua “visão de mundo” ou no que chamamos também de “paradigma”. Estas mudanças quando ocorrem! Mudam seu comportamento perante sua própria vida, e naturalmente, perante seus semelhantes. Ai, dizemos erroneamente, “fulano”, mudou completamente! Os “Seres” são criações divinas, portanto, perfeitas e eternas.  Que só evoluem em seu entendimento ou percepção da existência, ou no que chamamos de evolução do espírito. Sendo ele uma partícula que em sua essência é criação do “TODO”, não teria como alterar esta criação nem com o passar da eternidade. A evolução não se processa na essência do espírito, mas sim, na sua percepção, ou entendimento da existência como um todo. O ocidental, não sei porque, no geral confunde a “essência” do espírito que é o próprio espírito, com o “entendimento”, que representa sua evolução interior!  Esta evolução no “eu interior” através do “entendimento” só torna-se possível quando “Seres” se tornam duais: Matéria e Espírito! Em outras palavras "seres humanos". Movér

8* Mas, qualquer alteração que houver nesta visão de mundo! Advirá de dentro deste “Ser”. O que poderá ser provocada pelo entendimento da leitura de um texto, ou do entendimento proposto ou contido numa palestra, mas, isto só ocorrerá! Com uma profunda interação, que por ventura houver, entre este entendimento e o seu “eu” interior, ou essência espiritual, e que no ocidente chamamos de espírito ou alma. Aí, o entendimento da “existência” deste espírito mudou, mas, não o espírito em si. Não creio que isto seja tão difícil de entender! Creio que ainda reste um resquício de materialidade no enfoque que o ocidental faz do “Ser” que chamam de “espírito”. Só pode ser isso! Isto só pode derivar disto!

Vamos à transcrição...

Capítulo I
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9* A Busca do Homem – A Mente Torturada – O Caminho Tradicional – A Armadilha da Respeitabilidade – O Ente Humano e o Indivíduo – A Batalha da Existência - A Natureza Básica do Homem – A Respeitabilidade – A Verdade – A Dissipação de Energia – A Libertação da Autoridade.

Através das idades veio o homem buscando uma certa coisa além de si próprio, além do bem-estar material – uma coisa que se pode chamar verdade, Deus ou realidade, um estado atemporal – algo que não possa ser perturbado pelas circunstâncias, pelo pensamento ou pela corrupção humana.
O homem sempre indagou: Qual a finalidade de tudo isso? Tem a vida alguma significação? Vendo a enorme confusão reinante na vida, as brutalidades, as revoltas, as guerras, as intermináveis divisões da religião, da ideologia, da nacionalidade, pergunta homem, com um profundo sentimento de frustração, o que se deve fazer, o que é isso que se chama viver e se alguma coisa existe além de seus limites.
   E, não podendo encontrar essa coisa sem nome e de mil nomes que sempre buscou, o homem cultivou a fé – fé num salvador ou num ideal, a fé que invariavelmente gera a violência.
Nesta batalha constante que chamamos “viver”, procuramos estabelecer um código de conduta, conforme a sociedade em que somos criados, quer seja uma sociedade comunista, quer uma pretensa sociedade livre; aceitamos um padrão de comportamento como parte de nossa tradição hinduísta, muçulmana.

Capítulo I
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10* cristã ou outra. Esperamos que alguém nos diga o que é conduta justa ou injusta, pensamento correto ou incorreto e, pela observância desse padrão, nossa conduta e nosso pensar se tornam mecânicos, nossas reações, automáticas. Pode-se observar isso muito facilmente em nós mesmos.

Durante séculos fomos amparados por nossos instrutores, nossas autoridades, nossos livros, nossos santos. Pedimos: “Dizei-me tudo; mostrai-me o que existe além dos montes, das montanhas e da Terra” – e satisfazemo-nos com suas descrições, quer dizer, vivemos de palavras, e nossas vidas são superficiais e vazias. Não somos originais. Temos vivido das coisas que nos tem dito, ou guiados por nossas inclinações, nossas tendências, ou impelidos a aceitar pelas circunstâncias e o ambiente. Somos o resultado de toda espécie de influência e em nós nada existe de novo. Nada descoberto por nós mesmos. Nada original. Inédito, claro.

Consoante à história teológica, garantem-nos os guias religiosos que, se observarmos determinados rituais, recitarmos certas preces e versos sagrados, obedecermos a alguns padrões, refrearmos nossos desejos, controlarmos nossos pensamentos, sublimarmos nossas paixões, se nos abstivermos dos prazeres sexuais, então, após torturar suficientemente o corpo e o espírito, encontraremos uma certa coisa além desta vida desprezível.
É isso o que tem feito, no decurso das idades, milhões de indivíduos ditos religiosos, quer pelo isolamento, nos desertos, nas montanhas, numa caverna, quer peregrinando de aldeia em aldeia a esmolar, quer em grupos, ingressando em mosteiros e forçando a mente a ajustar-se a padrões estabelecidos. Mas, a mente que foi torturada, subjugada, a mente que deseja fugir a toda agitação, que renunciou ao mundo exterior e se tornou embotada pela disciplina e o ajustamento – essa mente, por mais longamente que busque, o que achar será em conformidade com sua própria deformação.

Assim, para descobrir se de fato existe ou não alguma coisa além desta existência ansiosa, culpada, temerosa, competidora, parece-me necessário tomarmos um caminho completamente diferente. O caminho tradicional parte da periferia para dentro, para, através do tempo, da prática e da renúncia, atingir gradualmente aquela flor interior, aquela íntima beleza e
  
Capítulo I
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11* amor – enfim, tudo fazer para tornarmos estreitos, vulgares e falsos; retirar as camadas uma a uma; precisar do tempo: amanhã ou na próxima vida chegaremos – e quando, afinal, atingirmos  centro, não encontrarmos nada, porque nossa mente se tornou incapaz, embotada, insensível.

Após observar esse processo, perguntamos a nós mesmos se não haverá outro caminho totalmente diferente, isto é, se não teremos possibilidade de “explodir” do centro.

O mundo aceita e segue o caminho tradicional. A causa primária da desordem em nós existente é estarmos buscando a realidade prometida por outrem; mecanicamente seguimos todo aquele que nos garante uma vida espiritual confortável. É um fato verdadeiramente singular esse, que, embora em maioria sejamos contrários à tirania política e à ditadura, interiormente aceitamos a autoridade, a tirania de outrem, permitindo-lhe deformar a nossa mente e a nossa vida. Assim, se de todo rejeitarmos, não intelectual, porém realmente, a autoridade dita espiritual, as cerimônias, rituais e dogmas, isso significará que estamos sozinhos, em conflito com a sociedade; deixaremos de ser entes humanos respeitáveis. Ora, um ente humano respeitável nenhuma possibilidade tem de aproximar-se daquela infinita, imensurável realidade.

Começais agora por rejeitar uma coisa que é totalmente falsa – o caminho tradicional – mas, se rejeitardes com reação, tereis criado outro padrão no qual vos vereis aprisionado com uma armadilha; se intelectualmente dizeis a vós mesmo que esta rejeição é uma ideia importante, e nada fazeis, não ireis mais longe. Se entretanto, a rejeitardes por terdes compreendido quanto é estúpida e imatura, se a rejeitais com alta inteligência, porque sois livre e sem medo, criareis muita perturbação dentro e ao redor de vós, mas, vos livrareis da armadilha da respeitabilidade. Vereis então que cessou o vosso buscar. Essa é a primeira coisa que temos de aprender: não buscar. Quando buscais, agis, com efeito, como se estivésseis apenas a olhar vitrinas.

A pergunta sobre se há Deus, verdade, ou realidade – ou como queira chamá-lo – jamais será respondida pelos livros, pelos sacerdotes, filósofos ou salvadores. Ninguém e

Capítulo I
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12* Nada pode responder a essa pergunta, porém, somente vós mesmo, e essa é a razão por que deveis conhecer-vos. Só há falta de madureza na total ignorância de si mesmo. A compreensão de si próprio é o começo da sabedoria.

E, o que é vós mesmo, o vós individual? Penso que há uma diferença entre o ente humano e o indivíduo. O indivíduo é a entidade local, o habitante de qualquer país, pertencente à determinada cultura, uma dada sociedade, uma certa religião. O ente humano não é uma entidade local. Ele está em toda parte. Se o indivíduo só atua num certo canto, isolado do vasto campo da vida, sua ação está totalmente desligada do todo. Portanto, é necessário ter em mente que estamos falando do todo e não da parte, porque no maior está contido o menor, mas o menor não contém o maior. O indivíduo é aquela insignificante entidade condicionada, aflita, frustrada, satisfeita com seus pequeninos deuses e tradições; já o ente humano está interessado no bem-estar geral, no sofrimento geral e na total confusão em que se acha o mundo.
Nós, entes humanos, somos os mesmos que éramos há milhões de anos – enormemente ávidos, invejosos, agressivos, ciumentos, ansiosos e desesperados, com ocasionais lampejos de alegria e afeição. Somos uma estranha mistura de ódio, medo e ternura; somos ao mesmo tempo a violência e a paz. Têm-se feito progressos, exteriormente, do carro de boi ao avião a jato, porém, psicologicamente, o indivíduo não mudou em nada, e a estrutura da sociedade, em todo mundo, foi criada por indivíduos. A estrutura social, exterior, é o resultado da estrutura psicológica, interior, das relações humanas, pois o indivíduo é o resultado da experiência, dos conhecimentos e da conduta do homem, englobadamente. Cada um de nós é o depósito de todo o passado. O indivíduo é o ente humano que representa toda a humanidade. Toda a história humana está escrita em nós.

Observai o que realmente está ocorrendo dentro e fora de vós mesmo, na cultura de competição em que viveis, com seu desejo de poder, posição, prestígio, nome, sucesso, etc.: observai as realizações de que tanto vos orgulhais, todo esse campo que chamais viver e no qual há conflito em todas as formas de relação, suscitando ódio, antagonismo, brutalidade

Capítulo I
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13* e guerras intermináveis. Esse campo, essa vida, é tudo o que conhecemos, e como somos incapazes de compreender a enorme batalha da existência, naturalmente lhe temos medo e dela tentamos fugir pelas mais sutis e variadas maneiras. Temos também medo a desconhecido – temor da morte, temor do que reside além do amanhã. Assim, temos medo ao conhecido e medo ao desconhecido. Tal é a nossa vida diária; nela, não há esperança alguma e, por conseguinte, qualquer espécie de filosofia, qualquer espécie de teologia representa meramente uma fuga à realidade – do que é.
Todas as formas exteriores de mudança, produzidas pelas guerras, revoluções, reformas; pelas leis e ideologias, falharam completamente, pois não mudaram a natureza básica do homem e, portanto, da sociedade. Como seres humanos, vivendo neste mundo monstruoso, perguntemos a nós mesmos: “Pode esta sociedade, baseada na competição, na brutalidade e no medo, terminar? – terminar, não como um conceito intelectual, como uma esperança, porém como um fato real, de modo que a mente se torne vigorosa, nova, inocente, capaz de criar um mundo totalmente diferente?” Creio que isso só ocorrerá se cada um de nós reconhecermos o fato central de que, como indivíduos, como entes humanos, - seja qual for a parte do universo em que vivamos, não importando a que cultura pertençamos – somos inteiramente responsáveis por toda a situação do mundo.
Somos, cada um de nós, responsáveis por todas as guerras, geradas pela agressividade de nossas vidas, pelo nosso nacionalismo, egoísmo, nossos deuses, preconceitos, ideais – pois tudo isso está a dividir-nos. E só quando percebemos, não intelectualmente, porém realmente, tão realmente como reconhecemos que estamos com fome ou que sentimos dor, bem como quando vós e eu percebemos que somos os responsáveis por todo este caos, por todas as aflições existentes no mundo inteiro, porque para isso contribuímos em nossa vida diária e fazemos parte desta monstruosa sociedade, com suas guerras, divisões, sua fealdade, brutalidade e avidez – só então poderemos agir.
Mas, que pode fazer um ente humano, que podeis vós e eu fazer para criar uma sociedade completamente

Capítulo I
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14* diferente? Estamos fazendo a nós mesmos uma pergunta muito séria. É necessário fazer alguma coisa? Que podemos fazer? Alguém no-lo dirá? Muita gente no-lo tem dito. Os chamados guias espirituais, que supõem compreender essas coisas melhor do que nós, no-lo disseram, tentando modificar-nos e moldar-nos em novos padrões, e isso não nos levou muito longe; homens sofisticados e eruditos no-lo tem dito, e também eles não nos levaram muito longe.  Disseram-nos que todos os caminhos levam a verdade, vós tende o vosso caminho, como hinduísta, outros o tem com cristãos, e outros, ainda o tem como muçulmano; mas, todos estes caminhos vão encontrar-se diante da mesma porta. Isso, quando considerarmos bem, é um evidente absurdo. A verdade não tem caminho, e essa é sua beleza; ela é viva. Uma coisa morta não tem um caminho a ela conducente, porque é estática, mas, quando perceberdes que a verdade é algo que vive, que se move, que não tem pouso, que não tem templo, mesquita ou igreja, e que a ela nenhuma religião, nenhum instrutor, nenhum filósofo pode levar-vos – vereis, então, também, que essa coisa viva é o que realmente sois – vossa irascibilidade, vossa brutalidade, vossa violência, vosso desespero, a agonia e o sofrimento em que viveis. Na compreensão de tudo isso se encontra a verdade. E só o compreendereis se souberdes como olhar tais coisas de vossa vida. Mas não se pode olhá-las através de um ideologia, de uma cortina de palavras, através de esperanças e temores.
Como vedes, não podeis depender de ninguém. Não há guia, não há instrutor, não há autoridade. Só existe vós, vossas relações com outros e com o mundo, e nada mais. Quando se percebe este fato, ou ele produz um grande desespero, causador de pessimismo e amargura; ou, enfrentando o fato de que vós e ninguém mais sois o responsável pelo mundo e por vós mesmo, pelo que pensais, pelo que sentis, pela maneira como agis, desaparece de todo a autocompaixão. Normalmente, gostamos de culpar os outros, o que é uma forma de autocompaixão.
Poderemos, então, vós e eu, promover em nós mesmos – sem dependermos de nenhuma influência exterior, de nenhuma persuasão, sem nenhum medo de punição – poderemos promover em nossa própria essência uma revolução total, uma mutação psicológica, para que não sejamos mais brutais, violentos,

Capítulo I
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15* competidores, ansiosos, medrosos, ávidos, invejosos – enfim, todas as manifestações de nossa natureza que formaram a sociedade corrompida em que vivemos nossa vida de cada dia?
Importa compreender desde já que não estou formulando nenhuma filosofia ou estrutura de ideias ou conceitos teológicos. Todas as ideologias se me afiguram totalmente absurdas. O importante não é a filosofia da vida, porém que observemos o que realmente está ocorrendo em nossa vida diária, interior e exteriormente. Se observardes muito atentamente o que se está passando, se examinardes, vereis que tudo se baseia num conceito intelectual. Mas o intelecto não constitui o campo total da existência; ele é um fragmento, e todo fragmento, por mais engenhosamente ajustado, por mais antigo e tradicional que seja, continua a ser uma parte insignificante da existência, e nós temos de interessar-nos pela totalidade da vida. Quando consideramos o que está ocorrendo no mundo, começamos a compreender que não há processo exterior nem processo interior; há só um processo unitário, um movimento integral, total, sendo que o movimento interior se expressa exteriormente, e o movimento exterior, por sua vez, reage ao interior. Ser capaz de olhar este fato – eis o que é necessário, só isso; porque, se sabemos olhar, tudo se torna claríssimo. O ato de olhar não requer nenhuma filosofia, nenhum instrutor. Ninguém precisa ensinar-vos como olhar.  Olhais simplesmente.
Assim, vendo todo esse quadro, vendo-o não verbalmente porém realmente, podeis transformar-vos, natural e espontaneamente? Esse é que é o verdadeiro problema. Será possível promover uma revolução completa na psique?
Eu gostaria de saber qual é a vossa reação a uma pergunta dessas. Direis porventura: “Não desejo mudar” – e a maioria das pessoas não o deseja, principalmente aqueles que se acham em relativa segurança, social e econômica, ou que conservam crenças dogmáticas e se satisfazem em aceitar a si próprios e às coisas tais como são ou em forma ligeiramente modificada. Tais pessoas não nos interessam. Ou talvez digais, mais sutilmente: “Ora, isso é dificílimo, está fora do meu “alcance“. Nesse caso, já fechastes o caminho, já cessastes de investigar e será completamente inútil prosseguir. Ou, ainda, direis: “percebo a necessidade de uma transformação interior,

Capítulo I
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16* fundamental, em mim mesmo, mas como empreendê-la? Peço-vos me mostreis o caminho, me ajudeis a alcançá-la”. Se assim falardes, então o que vos interessa não é a transformação em si, não estais realmente interessado numa revolução fundamental: estais, meramente, a buscar um método, um sistema capaz de efetuar a mudança.
Se fôssemos tão sem juízo que vos déssemos um sistema, e vós tão sem juízo que o seguísseis, estaríeis meramente a copiar, a imitar, a ajustar-vos, a aceitar, e, fazendo tal coisa, teríeis estabelecido em vós mesmo a autoridade de outrem, do que resultaria conflito entre vós e essa autoridade. Pensais que deveis fazer tal e tal coisa porque vo-la mandaram fazer e, no entanto, sois capaz de fazê-la. Tendes vossas peculiares inclinações, tendências e pressões, que colidem com o sistema que julgais dever seguir e, por conseguinte, existe um contradição. Levareis, assim, uma vida dupla, entre a ideologia do sistema e a realidade de vossa existência diária. No esforço para ajustar-vos à ideologia, recalcais a vós mesmo e, no entanto, o que é realmente verdadeiro não é a ideologia, porém aquilo que sois. Se tentardes estudar-vos de acordo com outrem, permanecereis sempre um ente humano sem originalidade.
O homem que diz: “Desejo mudar, dizei-me como consegui-lo” – parece muito atento, muito sério, mas não o é. Deseja uma autoridade que ele espera, que estabelecerá a ordem nele próprio. Mas, pode algum dia a autoridade promover a ordem interior? A ordem imposta de fora gera sempre, necessariamente a desordem. Podeis perceber essa verdade intelectualmente, mas sereis capaz de aplicá-la de maneira que vossa mente não projete qualquer autoridade – a autoridade de um livro, de um instrutor, da esposa ou do marido, dos pais, de um amigo, ou da sociedade? Como sempre funcionamos segundo o padrão de uma fórmula, essa fórmula transforma-se em ideologia e autoridade; mas, assim que perceberdes realmente que a pergunta “como mudar?” cria uma nova autoridade, tereis acabado com a autoridade para sempre.
Repitamo-lo claramente: Vejo que tenho de mudar completamente, desde as raízes de meu ser; não posso mais depender de nenhuma tradição, porque foi a tradição que criou essa colossal indolência, aceitação e obediência; não posso contar

Capítulo I
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17* com outrem para me ajudar a mudar, com nenhum instrutor, nenhum deus, nenhuma crença, nenhum sistema, nenhuma pressão ou influência externa. Que sucede então?
Em primeiro lugar, podeis rejeitar toda autoridade? Se podeis, isso significa que já não tendes medo. E então que acontece? Quando rejeitais algo falso que trazeis convosco há gerações, quando largais uma carga de qualquer espécie, que acontece? Aumentais vossa energia, não? Ficais com mais capacidade, mais ímpeto, maior intensidade e vitalidade. Se não sentis isso, nesse caso não largastes a carga, não vos livrastes do peso morto da autoridade.
Mas, uma vez vos tenhais livrado dessa carga e tenhais aquela energia em que não há medo de espécie alguma – medo de errar, de agir incorretamente – essa própria energia não é então mutação? Necessitamos de grande abundância de energia, e a dissipamos com o medo; mas, quando existe a energia que vem depois de nos livrarmos de todas as formas do medo, essa própria energia produz a revolução interior, radical. Nada tendes que fazer nesse sentido.
Ficais então a sós com vós mesmo, e esse é o estado real que convém ao homem que considera a sério estas coisas. E como já não contais com a ajuda de nenhuma pessoa ou coisa, estais livre para fazer descobertas. Quando há liberdade, há energia; quando há liberdade, ela não pode fazer nada errado. Não há agir correta ou incorretamente, quando há liberdade. Sois livre e, desse centro, agis. Por conseguinte, não há medo, e a mente sem medo é capaz de infinito amor.e o amor pode fazer o que quer.
O que agora vamos fazer, por conseguinte, é aprender a conhecer-nos, não de acordo comigo ou de acordo com um certo analista ou filósofo; porque, se fazemos de acordo com outra pessoa, aprendemos a conhecer essas pessoas e não a nós mesmos. Vamos aprender o que somos realmente.
Tendo percebido que não podemos depender de nenhuma autoridade exterior para promover a revolução total na estrutura de nossa própria psique, apresenta-se a dificuldade infinitamente maior de rejeitarmos nossa própria autoridade interior,

Capítulo I
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18* a autoridade de nossas próprias e insignificantes experiências e opiniões acumuladas, conhecimentos, ideias e ideais. Digamos que tivestes ontem uma experiência que vos ensinou algo, e isso que ela ensinou se torna uma nova autoridade, e vossa autoridade de ontem é tão destrutiva quanto a autoridade de um milhar de anos. A compreensão de nós mesmos não requer nenhuma autoridade, nem a do dia anterior nem a de há mil anos, porque somos entidades vivas, sempre em movimento, sempre a fluir e jamais se detendo. Se olharmos a nós mesmos com a autoridade morta de ontem, nunca compreenderemos o movimento vivo e a beleza e natureza desse movimento.
Livrar-se de toda a autoridade, seja própria, seja de outrem, é morrer para todas as coisas de ontem – para que a mente seja sempre fresca, sempre juvenil, inocente, cheia de vigor e de paixão. Só nesse estado é que se aprende e observa. Para tanto, requer-se grande capacidade de percebimento, de real percebimento do que se está passando no interior de vós mesmo, sem corrigirdes e que vedes, sem dizerdes o que deveria ou não deveria ser. Porque, tão logo corrigis, estais estabelecendo outra autoridade, um censor.
Vamos, pois, investigar juntos a nós mesmos; ninguém ficará explicando enquanto ides lendo, concordando ou discordando do explicador ao mesmo tempo em que ides seguindo as palavras do texto, porém vamos fazer juntos uma viagem, uma viagem de exploração dos mais secretos recessos de nossa mente. Para compreender essa viagem precisamos estar livres; não podemos transportar uma carga de opiniões, preconceitos e conclusões – todos os trastes imprestáveis que juntamos no decurso dos últimos dois mil anos ou mais. Esquecei-vos de tudo o que pensastes a vosso respeito, vamos iniciar a marcha como se nada soubéssemos.
A noite passada choveu torrencialmente e agora céu está começando a limpar-se; é um dia novo, fresco; encontremo-nos com este dia novo como se fosse nosso único dia. Iniciemos juntos a jornada, deixando para trás todas as lembranças de ontem, e comecemos a compreender-nos pela primeira vez.

19* Chegamos ao fim da transcrição “ipsis litteris” desta sucinta apresentação de um único capítulo da obra. LIBERTE-SE DO PASSADO. Esta transcrição é dirigida aos que ainda desconhecem o pensamento e as proposições de Jiddu Krishnamurti, aos seus leitores habituais, esta transcrição torna-se desnecessária. Movér.

20* Este primeiro capítulo do livro LIBERTE-SE DO PASSADO, acima transcrito, consta de 3425 palavras. Naturalmente, que isto representa somente parte dos ensinamentos e proposições de Jiddu Krishnamurti, sobre como andar bem, com nossas próprias pernas pela trilha que nos leva ao autoconhecimento. Creio, embora o que cremos nunca nos leve a lugar algum, recordando e considerando que não crer, também sempre nos leva a nada. Segundo Krishnamurti não devemos buscar pelo ser que reside em nós, mas sim, encontrar o ser que reside em nós, a diferença é sutil, mas, existe! O que nos levará à essência do ente humano. Esta jornada independe de instrutor, guia, professor, mestre, filósofo, chefe religioso ou guru. Nos pensamentos e nas proposições de Krishnamurti, contidas em suas mais de “sessenta obras”, ele nos propõe, minuto a minuto, que o caminho só pode ser percorrido por cada um e de “per se”. Quem lê suas obras, se conscientiza, de que “ele” não é, nem se considera ou se põe como nosso guia, profeta, guru, instrutor ou coisa semelhante. Segundo suas palavras o homem é mestre de si próprio, ele somente nos mostra singela e sabiamente como um espelho, como sermos nossos próprios timoneiros, em meu rude entendimento: (O homem não necessita de guia! Quem necessita de guia é o cego, pois, toda a luz para iluminar nosso caminho na compreensão de nós mesmos, está em nosso interior divino, ou seja, em nossa espiritualidade feita exclusivamente de energia). O desenvolvimento da ciência, cerceou a filosofia da busca da sua espiritualidade. Espiritualidade é coisa que o filósofo de hoje, estribado na ciência, deixou de buscar a muito tempo. A proposição de Denis Diderot está mais atual que nunca!

21* Krishnamurti escreve por si próprio, ele nunca cita um único filósofo, um único grande mestre do saber, ou mesmo, um único ensinamento de um grande mestre religioso. Ele chama a tenção para o fato que a única entidade a que temos acesso irrestrito, é nosso eu interior e nada mais, Observai e estai atentos a este fato. Sendo vastíssima a obra de Krishnamurti, para conhecê-lo melhor, ele, e sua obra, o melhor caminho é visitar o site: Da ICK. (Instituição Cultural Krishnamurti). Que segue adiante. Esta Instituição vem desde 1935 divulgando os ensinamentos do "espelho” no Brasil. Ele se considerava um espelho, e nunca um Guru ou Guia espiritual de qualquer pessoa. Eis Krishnamurti em sua essência. Estes dizeres de Jiddu, são repetidas no marcador de leitura nº 31*
[... - Estou apenas a ser como um espelho da vossa vida, no qual podeis ver-vos como sois. Depois, podeis deitar fora o espelho; o espelho não é importante. - ...] Krishnamurti
  
 http://www.krishnamurti.org.br/

22* Ai, nesse link acima, encontrarás endereços de editoras, títulos de suas obras publicadas no Brasil, a sua biografia, e vários comentários sobre suas obras.

23* O homem inteligente, não segue outro homem inteligente, muito menos segue um homem estulto, simplesmente busca o despertar da sua inteligência imanente, portanto, contida em seu próprio interior. Movér.


24* Estas, a seguir, são citações de algumas proposições de Krishnamurti: Sendo encontradas na Wikipédia. É só digitar no GOOGLE: “Jiddu Krishnamurti”, onde há a vantagem de se poder utilizar os links, (letras azuis sublinhadas), que nos levam a vários temas “específicos”:

OBSERVAÇÕES E PROPOSIÇÕES DE KRISHNAMURTI
Vão dos marcadores de leitura de nº 25* a 32*

25* A forma mais elevada de inteligência humana é dirigir a atenção desprovida de julgamento

26* Observar não implica acúmulo de conhecimento, apesar de o conhecimento ser obviamente necessário em um certo nível: conhecimento como médico, conhecimento como cientista, conhecimento da história, de todas as coisas do passado. Afinal de contas, isso é o conhecimento: informação sobre as coisas do passado. Não há conhecimento do amanhã, apenas conjecturas sobre o que poderia acontecer amanhã, baseado no seu conhecimento do que já aconteceu. Uma mente que observa com conhecimento é incapaz de seguir rapidamente o fluxo do pensamento. É apenas pelo observar sem a tela do conhecimento que se começa a ver toda a estrutura do seu próprio pensar. E quando você observa - o que não é condenar ou aceitar, mas simplesmente observar - você descobrirá que o pensamento chega a um fim. Observar casualmente um pensamento ocasional não leva a lugar nenhum. Mas se você observa o processo do pensar e não se torna um observador separado do observado, você vê todo o movimento do pensamento sem aceitá-lo ou condená-lo, então essa própria observação põe um fim imediatamente no pensamento - e consequentemente a mente está compassiva; ela está num estado de constante mutação.


27* Há uma diferença entre concentração e atenção. Concentração é trazer toda sua energia para focá-la em um ponto determinado. Na atenção não existe um ponto de foco. Nós estamos familiarizados com um e não com o outro. Quando você presta atenção ao seu corpo, o corpo torna-se quieto, o qual tem sua própria disciplina. Ele está relaxado, mas não indolente e tem a energia da harmonia. Quando existe atenção, não há contradição e, portanto não há conflito. Quando você ler   isto, preste atenção à maneira que você está sentado, à maneira que você está escutando, como você está recebendo o que a carta está dizendo a você, como você está reagindo ao que está sendo dito e porque você está achando difícil prestar atenção. Você não está aprendendo como prestar atenção. Se você estiver aprendendo o como prestar atenção, então isto se tornará um sistema, que é o que o cérebro está acostumado, e então você faz da atenção algo mecânico e repetitivo, ao passo que a atenção não é mecânica ou repetitiva. É a maneira de olhar para sua vida inteira sem o centro do interesse próprio.

28* O problema, por conseguinte, é este: para que o homem possa transformar-se radicalmente, fundamentalmente, torna-se necessária uma mutação nas próprias células cerebrais de sua mente. Dizem-nos que devemos mudar, que devemos agir, que devemos transformar nossa mente, nosso coração, tornar-nos uma coisa totalmente diferente. Isso vem sendo pregado há milhares de anos por homens muito sérios, muito ardorosos, e também por charlatães interessados em explorar o povo. Mas, agora, chegamos ao ponto em que não há mais tempo a perder. Compreendei isto, por favor. Não dispomos de tempo para efetuar gradualmente tal transformação. Os intelectuais de todo o mundo estão reconhecendo que o homem se acha à beira de um abismo, na iminência de destruir a si próprio. Nem religiões, nem deuses, nem salvadores, nem mestres, nem as lengalengas dos gurus, poderão impedi-los. Dizem os intelectuais ser necessário inventar uma nova droga, uma 'pílula dourada' capaz de produzir uma completa transformação química; e os cientistas provavelmente descobrirão esta droga. Não sei se estais bem a par dessas coisas. Ora conquanto o organismo físico seja um produto bioquímico, pode uma droga, uma superdroga fazer-vos amar, tornar-vos bondosos, generosos, delicados, não violentos? Não o creio; nenhum preparado químico pode fazer os homens amarem-se uns aos outros. O amor não é um produto do pensamento; também não é cultivável, como a flor que cultivamos em nosso jardim. O amor não pode ser comprado numa drogaria, e o amor é a única coisa que poderá salvar o homem - e não os artifícios das religiões, nem seus ritos, nem todos os exércitos do mundo. Podemos fugir, assistindo a concertos, visitando museus, entregando-nos a divertimentos de toda ordem - debalde! - porque o homem se acha hoje em dia em presença de um tremendo problema: se tem a possibilidade de transformar-se radicalmente, de efetuar uma total mutação de sua consciência, não amanhã, nem daqui a alguns anos, mas agora! Eis o problema principal: se o homem, em qualquer país que viva, com todas as suas belezas naturais, é capaz de operar uma mutação radical em seu interior, imediatamente. E não podeis resolvê-lo com vossas crenças, vossas ideologias, vossos deuses, salvadores, sacerdotes e rituais. Essas coisas já não tem o menor significado.

29* Podemos ir longe, se começarmos de muito perto. Em geral começamos pelo mais distante, o "supremo princípio", o maior ideal, e ficamos perdidos em algum sonho vago do pensamento imaginativo. Mas quando partimos de muito perto, do mais perto, que é nós, então o mundo inteiro está aberto — pois nós somos o mundo. Temos de começar pelo que é real, pelo que está a acontecer agora, e o agora é sem tempo.

30* Meditação é libertar a mente de toda desonestidade. O   pensamento gera desonestidade. O pensamento, no seu esforço para ser honesto, é comparativo e, portanto, desonesto. (…) Meditação é o movimento dessa honestidade no silêncio

31* Estou apenas a ser como um espelho da vossa vida, no qual podeis ver-vos como sois. Depois, podeis deitar fora o espelho; o espelho não é importante.

32* Falamos da vida, e não de ideias ou teorias, de práticas ou de técnicas. Falamos para que olhe esta vida total, que é também a sua vida, para que lhe dê atenção. Isso significa que não pode desperdiçá-la. Tem pouquíssimo tempo para viver, talvez dez, talvez cinquenta anos. Não perca esse tempo. Olhe a sua vida, dê tudo para compreender realmente a essência do que aqui vos foi apresentado.

Jiddu Krishnamurti.
    Comentado e compilado por:
    Edimilson Santos Silva Movér
    Vitória da Conquista, 05/08/2017
    Atualizado em agosto de 2018