domingo, 5 de agosto de 2018

CONVITE PARA O ENTERRO DOS MEUS FANTASMAS - ENSAIO

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DA SÉRIE: ENSAIOS QUE NOS LEVAM A PENSAR
Subsérie: Estudos filológicos

               CONVITE PARA O ENTERRO DOS MEUS FANTASMAS

 1* Este ensaio, como não poderia deixar de ser, é dedicado aos expoentes da Fina Flor do Lácio: Camões (é o primeiro que me vem à mente), talvez em sonho, não sei por que, mas só o vejo com os dois olhos abertos, bem abertos; interessante, nunca o vejo manaio; Eça de Queiroz, Antenor Nascentes, Rui Barbosa, de fraque, Humberto de Campos, um Antero de Quental, sisudo, todos indiferentes à minha piedade; vejo-os sempre saindo dos túmulos, em fila, andando em minha direção, de penas em punho, para me corrigir ou me admoestar; estes são os meus fantasmas!

2* O tema em pauta, foi denominado por Marcos Bagno de (Mito número 7), – este mito trata da separação entre a “língua falada e a língua escrita”, e a gramática normativa. Torna-se necessário que se faça uma apresentação do nosso anfitrião aos nossos ilustres leitores: O professor Marcos Bagno é tradutor, escritor e linguista, sendo Doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). Professor de Linguística do Instituto de Letras da Universidade de Brasília, (UNB). Dele é o (Mito número 7). Sua produção literária na área de “línguas” ultrapassa as duas dezenas de títulos. Sendo portanto, uma autoridade no assunto.
Edimilson Santos Silva

3* Nesse ensaio; tomaremos conhecimento de um tema sumamente interessante! Que é sobre a cobrança que todos nos fazem, por não sermos especialistas na fala, nem na escrita da “Fina Flor do Lácio”.
No entanto, tenho certeza que alguns outros colunistas deste Blog o são, não digo especialistas, mas, pelo menos dominam com certa facilidade a gramática que, pretensamente impõe uma norma culta à fala e a escrita da língua. No meu caso em particular! Escrevo de ousado que sou! Mas, confesso que passei a olhar com outros olhos o problema da aplicação da gramática normativa, à escrita. (Isto, quanto à sua aplicação nos meus singelos escritos). Qualquer pessoa que não possuir um completo domínio da gramática normativa, e ler o livro “PRECONCEITO LINGUÍSTICO”, (O que é, e como se faz), do professor Marcos Bagno, das “Edições Loyola”, passará a ter imediatamente outra visão sobre o assunto. No momento vamos analisar somente o que nos esclarece o cientista da língua, professor Marcos Bagno, no Capítulo de número 7 (sete), ou o Mito número 7 (sete). É PRECISO SABER GRAMÁTICA PARA FALAR E ESCREVER BEM, (pp.62-68).

4* Primeiramente vou apresentar os meus veneráveis fantasmas, aos meus amáveis leitores, Para depois enterrá-los solenemente, (enterrar os fantasmas, claro), se é que seja possível enterrar um fantasma! Depois trato do Mito número 7 (sete), do professor Marcos Bagno. No futuro, com o auxilio deste linguista e de seus colegas, ainda iremos ao enterro da gramática normativa. Isto segundo o próprio Marcos Bagno.

5* Depois de ler o livro deste ilustre cientista da língua, não vejo mais motivos para ter estes saudáveis, rotineiros e salutares encontros oníricos com estes meus já familiares fantasmas. Tudo na vida torna-se uma rotina, até encontro com fantasmas, embora seja uma rotina onírica! Assim, fica aqui o solene, (e alegre), convite para o enterro dos mesmos, na esperança de que cada um leitor, de “per se”, também faça o enterro dos seus fantasmas, naturalmente que este convite é dirigido unicamente a quem os possuir...

6* Em agosto do ano de 2003 dirigi uma carta a um filólogo, (que se tornou meu amigo através da net), por sinal nunca mais o vi, amigo virtual é assim mesmo, “virtual”, carta esta, com o seguinte conteúdo, ou vazada nos seguintes termos: Eis aí um exemplo do dinamismo da língua, eis aí, uma “coisa” que nunca consegui compreender; (claro que estou brincando com o leitor!). Como é que se consegue vazar uma carta? Será que é dobrando-a, e segurando-a pelas extremidades das dobras ou pontas, depois fazendo um pequeno furo no centro da dobra para que por ali vaze o que foi escrito? Será!!!...

7* A poucos dias tive uma prova viva do dinamismo da língua, estando em visita a um filho em Abrantes de Camaçari, quando chegou a hora de meu neto, (Hobert Rocha Santos Silva), ir para o Colégio, este meu neto de quinze anos, um aluno brilhante, campeão de xadrez do colégio Mendel, que já é poeta e escritor, e que faz o último ano do segundo grau, dirigindo-se para o portão, gritou para mim! Vazei vô! Tchau... Eu já tinha encontrado um exemplo semelhante no livro do Bagno. (Claro, que o verbo “vazar” na frase da carta é utilizado no sentido de escrever, e o meu neto estava utilizando o mesmo verbo em substituição ao verbo “ir” ou “partir”). O “vazar” da carta já está incorporado à forma culta, e o outro “vazar”, com certeza não demorará muito para estar.

8* Eis a minha carta ao filólogo:
Caro Amigo dos Anzóis Pereira e Coisas e Tais

Somos, com certeza, (cada um de “per se”), um universo à parte; se assim não o fosse, seríamos como nossos irmãos irracionais, “individualizados”, mas com procedimentos típicos de manada, com ações e atitudes grupais etc, em que, num milhão de indivíduos, ninguém se destaca, salvo nos comportamentos instintivos, da disputa na reprodução e pela sobrevivência. A igualdade mais marcante dos seres humanos é exatamente a diferença inerente a cada um. Quando encontrardes muitos indivíduos iguais, defendendo os mesmos princípios ou crenças, desconfie deles! Principalmente dos não questionadores, pertencentes à grupos com as mesmas crenças religiosas, científicas, filosóficas ou políticas, via de regra são fanáticos, com visão distorcida da realidade, mais parecendo habitantes da caverna de Platão.
A única esperança de cura para um fanático é rezar pela próxima encarnação; com sorte, ele talvez escape deste pesadelo. Perdoe-me por ter que ser mordaz, mas nesses casos torna-se necessário ser duro. Impossível enfrentar um exército de fanáticos com buquês de flores! Desconfio das multidões unânimes, pois, nelas vejo algo que me cheira a “algo de podre no Reino da Dinamarca”. A única “qualidade” da multidão é ser burra. Não creio que paire sobre a multidão o “Master Mind”. Também não acredito na máxima de que toda a unanimidade seja burra; os julgamentos unânimes nem sempre são burros, o caminho não é este. O caminho é a análise dura e fria, mas, racional dos procederes humanos.
O que leva os homens ao erro sempre são outros homens; desconheço o caso em que, ”intencionalmente”, o cachorro levou o dono ao crime! Sei, e sei bem, que a união faz a força e que o que nos fez progredir como espécie em evolução foi o instinto gregário. No entanto, na minha individualidade, sou de comportamento arredio; isto vem da minha natureza, do meu instinto, está no meu cérebro límbico; está no meu lado zoo, e todos o temos. Não chego a ser tímido, mas não me sinto bem nas aglomerações, principalmente nas reuniões sociais! Desconfio dos homens de gravata! Se possível, leve um papo com um homem “desconhecido” e de short, na praia, e, depois, converse com este mesmo homem no trabalho, já de paletó e gravata; analise se por ventura são as mesmas pessoas! Acredito que deduzirás que não! É muito comum a pessoa mudar em função do traje e do ambiente. Nada tenho contra o paletó e a gravata, pois são somente dois pedaços de pano. No entanto abomino o uso do “smoking” e da gravata (são mutiladores da personalidade). Claro que estou tratando do homem comum, como a mim. Usei gravata uma única vez na vida; mas tive quatro fortíssimas razões ou desculpas para fazê-lo: era inexperiente, era jovem, ia me casar e estava apaixonado. Neste caso, o instinto prevalece e tudo é válido.
Confesso! Nunca fui ao casamento de um filho, nem a uma de suas formaturas; de vez em quando, um aniversário me pega de surpresa: somente de surpresa. Também tenho outros defeitos ou qualidades; mais defeitos que qualidades. Por exemplo: quando começo a escrever, me apiedo dos filólogos, principalmente dos puristas. Por vários dias, fico imaginando! Camões (é o primeiro que me vem à mente), talvez em sonho, não sei por que, mas só o vejo com os dois olhos abertos, bem abertos; interessante, nunca o vejo manaio; Eça de Queiroz, Antenor Nascentes, Rui Barbosa, de fraque, Humberto de Campos, um Antero de Quental, sisudo, todos indiferentes à minha piedade; vejo-os sempre saindo dos túmulos, em fila, andando em minha direção, de penas em punho, para me corrigir ou me admoestar; são os meus fantasmas!
Creio que vou tomar capricho e aprender, pelo menos, os rudimentos mais elementares da “Fina Flor do Lácio”. Assim tomarei menos o seu precioso tempo. Espero um dia ter a honra e o prazer de conhecê-lo pessoalmente e, assim, poder usufruir de um (mesmo curto) bate-papo.
P.S.
Quanto ao seu não julgamento, não se preocupe; a minha intenção é esta mesma, (não ver os conceitos dos “insights” sob julgamento). Por terem origem exotérica/filosófica, são dirigidos ao homem comum e, por terem natureza metafísica, dispensam julgamentos de caráter científicos; a obra é tão somente a descrição dos “insights”, não tendo, assim, cunho contestatório de nenhuma área do conhecimento humano. A diversidade dos temas abordados pode ter me levado a algum erro conceitual; foi minha intenção levar aos leigos, pelo menos de forma simplificada e geral, pequena parte dos conhecimentos já acumulados pelo homem.
Espero não ter emitido conceitos incompatíveis com os postulados da ciência oficial. As contestações da ciência moderna, atualmente, são feitas na área da relatividade geral e da física quântica, isto pelos próprios físicos teóricos. Quanto ao professor de física, estou enviando um exemplar, para que você o encaminhe ao mesmo; ficarei agradecido se ele puder fazer uma crítica e uma correção nos conceitos científicos emitidos no ensaio; só queria que ele deixasse os conceitos cosmogônicos, contidos em toda a obra, no que tange aos “insights”, intactos, como estão, pois errados ou não, são frutos dos próprios “insights”. Mesmo por que; o “mistério maior” está em qualquer ponto; e não num ponto específico do riacho da montanha.
Veja bem!
O ponto de vista enunciado nas palavras dirigidas aos meus familiares é abrangente e tem aplicação a todo o relacionamento humano.
Com toda a admiração e o respeito, do aprendiz de aprendiz de rabiscador,
Edimilson Santos Silva Movér
Camaçari, Ba. - Vila de Abrantes, 18 de agosto de 2003

Fim da carta ao filólogo.

 Vamos então dirigir o foco deste arrazoado para o que nos diz o contido na “Obra: “Preconceito Linguístico”, (O que é, e como se faz), Marcos Bagno

9* O professor Marcos Bagno abre o seu livro com uma frase lapidar do filósofo Baruch de Spinoza, que diz: “Sedule curavi humanas actiones non ridere, non lugere neque detestare, sed intellegere”. 1

10* Na mitologia do preconceito linguístico o Mito de número 7 na página 62 da 45a edição do livro (Preconceito Linguístico) das “Edições Loyola”, possui o seguinte título: “É preciso saber gramática para falar e escrever bem”.

11* Aqui transcrevo “ipsis litteris” o que nos diz o arauto da derrocada da gramática normativa. Marcos Bagno, linguista e cientista da língua, pois todo linguista é um cientista da língua. Luiz Carlos Clagliari também comunga com esta opinião. Esta mesma opinião eu encontrei no mestre Antenor Nascentes, até mesmo o francês Jean-Jacques Rousseau sempre vociferou contra a gramática normativa. Portanto, esta briga, é briga de cachorro grande! Então, como cachorro de tamanho 0 (zero), talvez menor ainda, estou fora...

               Eis a transcrição:
12* Página 62 [...] - É difícil encontrar alguém que não concorde com a declaração:
“É preciso saber gramática para falar e escrever bem”, Ela vive na ponta da língua da grande maioria dos professores de português e está formulada em muitos compêndios gramaticais, como a já citada Gramática de Cipro e Infante, cujas primeiríssimas palavras são: “A Gramática é instrumento fundamental para o domínio do padrão culto da língua”.

13* É muito comum, também, os pais de alunos cobrarem dos professores o ensino dos “pontos” de gramática tais como eles próprios os aprenderam em seu tempo de escola. E não faltam casos de pais que protestaram veementemente contra professores e escolas que, tentando adotar uma prática de língua menos conservadora, não seguiam rigorosamente “o que está nas gramáticas”. Conheço gente que tirou seus filhos de uma escola porque o livro didático ali adotado não ensinava coisas “indispensáveis” como “antônimos”, “coletivos” e “análise sintática”.

14* Por que aquela declaração de número 7 é um mito? Porque, como nos diz Mário Perrini em Sofrendo a Gramática, (p. 50), “não existe um grão de evidência em favor disso; toda a evidência disponível é em contrário”. Afinal, se fosse assim, todos os gramáticos seriam grandes escritores (o que está longe de ser verdade), e os bons escritores seriam especialistas em gramática.

15* Ora, os escritores são os primeiros a dizer que gramática não é com eles! Rubem Braga, indiscutivelmente um dos grandes de nossa literatura, escreveu uma crônica deliciosa a este respeito chamada “Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim”.

16* Carlos Drummond de Andrade (preciso de adjetivos para qualificá-lo?), no poema “Aula de Português” também dá testemunho de sua perturbação diante do “mistério” das “figuras de gramática, esquipáticas”, que compõem “o amazonas de minha ignorância”. Drummond ignorante?

17* E o que dizer de Machado de Assis que segundo, Luiz Carlos Clagliari, ao abrir a gramática de um sobrinho, se espantou com a própria “ignorância” por “não ter entendido nada”? Esse e outros casos são citados por Celso Pedro Luft em Língua e Liberdade (pp. 23-25). E esse mesmo autor nos diz (p. 21):

18* Um ensino “gramaticalista” abafa justamente os talentos naturais, incute insegurança na linguagem, gera aversão ao estudo do idioma, medo a expressão livre e autêntica de si mesmo.


      19* Mário Perini, no livro que citamos acima, chama a atenção para a “propaganda enganosa” contida no mito de que é preciso ensinar gramática para aprimorar o desenvolvimento linguístico dos alunos:

20* Quando justificamos o ensino de gramática dizendo que é para que os alunos venham a escrever (ou ler, ou falar) melhor, estamos prometendo uma mercadoria que não podemos entregar. Os alunos percebem isso com bastante clareza, embora talvez não o possam explicitar; e esse é um dos fatores do descrédito da disciplina entre eles.

21* E Sírio Possenti, já citado, (não aqui no mito 7), (grifo meu), lembra-nos que as primeiras gramáticas do Ocidente, as gregas, só foram elaboradas no século II a.C., mas que muito antes disso já existira na Grécia uma literatura ampla e diversificada, que exerce influência até hoje em toda cultura ocidental. A Ilíada e a Odisseia já eram conhecidas no século VI a.C., Platão escreveu seus fascinantes Diálogos entre os séculos V e IV a.C., na mesma época do grande dramaturgo Ésquilo, verdadeiro criador da tragédia grega. Que gramática eles consultaram? Nenhuma! Como puderam então escrever e falar tão bem sua língua?

22* O que aconteceu ao longo do tempo, foi uma inversão da realidade histórica. As gramáticas foram escritas precisamente para escrever e fixar como “regras” e “padrões” as manifestações linguísticas usadas espontaneamente pelos escritores considerados dignos de admiração, modelos a ser imitados. Ou seja, a gramática normativa é decorrência da língua, é subordinada a ela, dependente dela. Como a gramática, porém, passou a ser um instrumento de poder e de controle, surgiu essa concepção de que os falantes e escritores da língua é que precisam da gramática, como se ela fosse uma espécie de fonte mística invisível da qual emana a língua “bonita”, “correta” e “pura”. A língua passou a ser subordinada e dependente da gramática. O que não está na gramática normativa “não é português”. E os compêndios gramaticais se transformaram em livros sagrados, cujos dogmas e cânones têm que ser obedecidos à risca para não se cometer nenhuma “heresia”.

23* O resultado dessa inversão dos fatos históricos é visível, por exemplo, na Gramática de Cipro e Infante que, na p. 16, afirma:

24* Aqui se estabelece que a norma culta, ou seja, o padrão linguístico que é normativo e socialmente é considerado modelar [...] As línguas que têm forma escrita, como é o caso do português, necessitam da Gramática normativa para que se garanta a existência de um padrão linguístico uniforme [...]

25* Ora, não é a gramática normativa que “estabelece” a norma culta. A norma culta simplesmente existe como tal. A tarefa de uma gramática seria, isso sim, definir, identificar e localizar os falantes cultos, coletar a língua usada por eles e descrever essa língua de forma clara, objetiva e com critérios teóricos e metodológicos coerentes. Sem isso não podemos confiar em gramáticas como a de um Domingos Paschoal Cegalla, que afirma simplesmente:

26* Este livro pretende ser uma Gramática Normativa da língua Portuguesa do Brasil, conforme a falam e escrevem as pessoas cultas na época atual [Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, p. XIX].

27* Mas quem são estas “pessoas cultas da época atual”? Com que critérios o autor as classificou de “cultas”? Com que metodologia precisa identificou o modo como elas “falam e escrevem”? Pois é isso precisamente que mais necessitamos hoje no Brasil: da descrição detalhada e realista a norma culta objetiva, com base em coletas confiáveis que se utilizem dos recursos tecnológicos mais avançados, para que ela sirva de base ao ensino/aprendizagem na escola, e não mais uma norma fictícia que se inspira num ideal linguístico inatingível, baseado no uso literário, artístico, particular e exclusivo dos grandes escritores. Afinal, um instrutor de auto escola quer formar bons motoristas, e não campeões internacionais de fórmula 1. Um professo de português quer formar bons usuários da língua escrita falada, e não prováveis candidatos ao prêmio Nobel de literatura!

28* Por outro lado, não é a gramática normativa que vai “garantir a existência de um padrão linguístico uniforme”. Esse padrão linguístico (que pode chegar a certo grau de uniformidade, mas nunca será totalmente uniforme, pois é usado por seres humanos que nunca hão de ser criaturas físicas, psicológica e socialmente idênticas), como dissemos, existe na sociedade, independentemente de haver ou não livros que o descrevam.

29* As plantas só existem porque os livros de botânica as descrevem? É claro que não. Os continentes só passaram a existir depois que os primeiros cartógrafos desenharam seus mapas? Difícil de acreditar. A Terra só passou a ser esférica depois que as fotografias tiradas do espaço mostraram-na assim? Não. Sem os livros de receitas não haveria culinária? Eu sei muito bem que não: a melhor cozinheira que conheço, capaz de preparar centenas de pratos diferentes, os mais sofisticados, é uma pernambucana de quase oitenta anos, cem por cento analfabeta.

30* Este mito está ligado à milenar confusão que se faz entre língua e gramática normativa. Mas é preciso desfazê-la. Não há por que confundir o todo com a parte. Lembra-se do que eu falei na abertura do livro sobre a gramática normativa ser um igapó? Acho que vale a pena repetir aqui. Na Amazônia, igapó é uma grande poça de água estagnada às margens de um rio, sobretudo depois da cheia. Acho uma boa metáfora para a gramática normativa. Como eu disse, enquanto a língua é um rio caudaloso, longo e largo, que nunca se detém em seu curso, a gramática normativa é apenas um igapó, uma grande poça de água parada, um charco, um brejo, um terreno alagadiço, à margem da língua. Enquanto a água do rio/língua, por estar em movimento, se renova incessantemente, a água do igapó/gramática normativa envelhece e só se renovará quando vier a próxima cheia.

31* É a mesma coisa que nos explica, em termos científicos Luiz Carlos Clagliari em Alfabetização & linguística:

32* A gramática normativa foi num primeiro momento uma gramática descritiva de um dialeto de uma língua. Depois a sociedade fez dela um corpo de leis para reger o uso da linguagem. Por sua própria natureza, uma gramática normativa está condenada ao fracasso, já que a linguagem é um fenômeno dinâmico e as línguas mudam com o tempo, e, para continuar sendo a expressão do poder social demonstrado por um dialeto, a gramática normativa deveria mudar.

33* Se não é o ensino/estudo da gramática que vai garantir a formação de bons usuários da língua, o que vai garanti-la? Existe muito debate a respeito entre os linguistas e os pedagogos. O certo é que eles são praticamente unânimes em combater aquele mito. Há lugar para a gramática na escola? Parece que sim. Mas também parece ser um lugar bastante diferente do que lhe era atribuído na prática tradicional de ensino da língua.

34* De todo modo, algumas pessoas muito competentes já explicaram tudo isso melhor do que eu seria capaz. Por isso, ao leitor e à leitora interessados neste tema recomendo a leitura, entre outros, dos já citados livros: Sofrendo a gramática, de Mário Perini. Por que (não) ensinar a gramática na escola, de Sírio Possenti, e Língua e liberdade, de Celso Pedro Luft, e também Linguagem língua e fala, de Ernani Terra; Contradições no ensino de português, de Rosa Virgínia Mattos e Silva, e Gramática na escola, de Maria Helena de Moura Neves. Esses linguistas nos ajudam a compreender melhor os mecanismos de exclusão que agem por trás da imposição das normas gramaticais conservadoras no ensino da língua e de que modo poderíamos, em nossa prática pedagógica, tentar desmontá-los. [...]

35* - Aqui termina a fala do nosso ilustre linguista, Marcos Bagno.

36* O volume de críticas é muito grande, quando se escreve sem obedecer a burrice contida na gramática normativa. A liberdade tolhida de escrever o português livremente, fora, (das normas), da gramática normativa tem deixado uma imensidão de pessoas com um imenso talento e conhecimento à margem do mundo dos “escritores”. Particularmente, eu não sei se isso é bom ou danoso, para o desenvolvimento do pensamento nacional! O que sei, e tenho certeza, é que nunca tive medo de críticas. Ora, se o que escrevo é lógico, é racional, é compreensível, é coerente, é inteligível, não vejo por que, ou por qual razão eu seria proibido, (por mim mesmo), de escrever!!!... Pois, devido a existência do artigo 19 da “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, ninguém pode proibir o homem de escrever ou falar.

37* Tenho a mais absoluta certeza de que não existe no Brasil uma lei proibindo escrever sem obedecer a gramática normativa. Não se pode confundir talento, conhecimento, verve poética, com obediência ao que prescreve a gramática normativa. O recurso utilizado pelos escritores que, por um motivo ou por outro não dominam o que prescreve a gramática normativa, é pagar aos “gramáticos normativos” para corrigir seus textos. Qual é o volume de dinheiro que se gasta por ano, com estas correções de textos? Quantos milhões de reais, os pais (assalariados) gastam na compra de livros de gramática normativa? Quem saberá me responder? Segundo o Marcos Bagno uma despesa inútil, será isto justo? Fora deste fato, o que nos entristece, é que muitos jovens veem seus sonhos de se tornarem possuidores de títulos universitários, tolhidos pelas temidas provas de redação, como se as universidades só formassem escritores? Torno a vos perguntar, isto é justo, é inteligente? De que adianta, impedir que um jovem passe num vestibular de medicina, por que sua nota de redação foi insuficiente, se o que ele vai escrever ninguém vai conseguir ler, às vezes nem os farmacêuticos conseguem. Quanto aos relatórios médicos! Eles são sempre escritos em computadores, que automaticamente os corrigem. Será! Que não estamos deixando de ter um competente médico? Que talvez um dia viesse a salvar a vida de um “gramático normativo”?

38* Espero que não tenha tomado o tempo do leitor, o que de melhor se falou sobre o assunto veio do cientista da língua, Marcos Bagno, isto é o que se observa neste “ensaio dos outros”, (antes que o digam). Não me vejo capacitado para fazer uma crítica tão contundente, quanto o professor Marcos Bagno o faz nos assuntos em questão; mas isto, não impede que eu sinta e compreenda o problema criado pela gramática normativa, para os usuários do português escrito e falado no Brasil, principalmente para aqueles que tem algo para escrever.

39* Depois de ter abordado o interessante tema do Mito 7 vejo-me tentado a transcrever mais algumas páginas do livro do Marcos Bagno, e é o que farei, no entanto, não comentarei o transcrito, deixo esta tarefa para o leitor, assim, ele tirará suas próprias conclusões sobre as dez cisões do Bagno.

40* Nas (PP. 142-145), Marcos Bagno criou um quadro interessante, com dez tópicos, os quais, conforme prometido, não vou comentar, e nem é necessário.
DEZ CISÕES para um ensino da língua não, ou menos, preconceituosos.
1) Conscientizar-se de que todo falante nativo de uma língua é um usuário competente dessa língua, por isso ele SABE essa língua. Entre os 3 ou 4 anos de idade, uma criança já domina integralmente a gramática de sua língua. Sendo assim,
2) Existem diferenças de uso ou alternativas de uso em relação à regra única proposta pela gramática normativa.
3) Não confundir erro de português (que afinal, não existe) com simples erro de ortografia. A ortografia é artificial, ao contrário da língua, que é natural. A ortografia é uma decisão política, é imposta por decreto, por isso ela pode mudar, e muda, de uma época para outra. Em 1899 as pessoas estudavam psycologia e história do Egypto; em 1999 elas estudam psicologia e história do Egito. Línguas que não tem escrita nem por isso deixam de ter sua gramática.
4) Reconhecer que tudo o que a gramática tradicional chama de erro é na verdade um fenômeno que tem uma explicação científica perfeitamente demonstrável. Se milhões de pessoas (cultas inclusive) estão optando por um uso que difere da regra prescrita nas gramáticas normativas é porque há alguma regra nova sobrepondo-se à antiga. Assim o problema está com a regra tradicional, e não com as pessoas, que são falantes nativos e perfeitamente competentes de sua língua. Nada é por acaso.
5) Conscientizar-se de que toda língua muda e varia. O que hoje é visto como “certo” já foi erro no passado. O que hoje é considerado “erro” pode vir a ser perfeitamente aceito como “certo” no futuro da língua. Um exemplo: no português medieval existia um verbo leixar (que aparece até na Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel I). Com o tempo, esse verbo foi sendo pronunciado deixar, porque [d] e [l] são consoantes aparentadas, o que permitiu a troca de uma pela outra. Hoje quem pronunciar leixar, vai estar cometendo um “erro” (vai ser acusado de desleixo), muito embora essa forma seja mais próxima da origem latina (compare-se, por exemplo, o francês laisser e o italiano lasciare). Por isso é bom evitar classificar algum fenômeno gramatical de “erro”: ele pode ser na verdade, um indício do que será a língua no futuro.
6) Dar-se conta de que a língua portuguesa não vai nem bem, nem mal. Ela simplesmente VAI, isto é, segue seu rumo, prossegue em sua evolução, em sua transformação, que não pode ser detida (a não ser com a eliminação de todos os seus falantes).
7) Respeitar a variedade linguística de toda e qualquer pessoa, pois isso equivale a tudo, respeitar a integridade física e espiritual dessa pessoa como ser humano, Porque:

8) A língua permeia tudo, ela nos constitui enquanto seres humanos. Nós somos a língua que falamos. A língua molda nosso modo de ver o mundo e nosso modo de ver o mundo molda a língua que falamos. Para os falantes de português, por exemplo, a diferença entre ser e estar é fundamental, eu estou infeliz é radicalmente diferente, para nós de, eu sou infeliz. Ora, línguas como o inglês, o francês e o alemão têm um único verbo para exprimir as duas coisas. Outras, como o russo, não tem verbo nenhum, dizendo algo assim como. Eu – infeliz, (o russo, na escrita, usa mesmo um travessão onde nós inserimos um verbo de ligação).
 9) Assim: uma vez que a língua está em tudo e tudo está na língua, o professor de português é professor de TUDO. (Alguém já me disse que talvez por isso o professor de português devesse receber um salário igual à soma dos salários de todos os outros professores).
10) Ensinar bem e ensinar para o bem. Ensinar para o bem significa respeitar o conhecimento intuitivo do aluno, valorizar o que ele já sabe do mundo, da vida, reconhecer na língua que ele fala a sua própria identidade como ser humano. Ensinar para o bem é acrescentar e não suprimir, é elevar e não rebaixar a autoestima do indivíduo. Somente assim, no início de cada ano letivo este indivíduo poderá comemorar a volta às aulas, em vez de lamentar a volta às jaulas.

41* Prezados e estimados leitores do BLOG do Paulo Nunes.
Espero não ter tomado o vosso precioso tempo, e de que tenhais absorvido a essência do que propõem os linguista no geral, e o professor Marcos Bagno no particular, no que toca e faz referência nestas poucas páginas que transcrevi do seu esclarecedor livro: “PRECONCEITO LINGUÍSTICO”, (o que é e como se faz).
Esta obra do professor BAGNO, é composta de 186 páginas, das quais transcrevi exatamente 10. Eu não sei se esta obra se encontra à venda nas livrarias de Conquista. Mas, ela pode ser adquirida através do endereço eletrônico:
 Em Vitória da Conquista, existe uma livraria que, em caso de falta de uma obra, a proprietária faz o pedido na hora... Isto, sem acréscimo algum... Esta livraria é o Cairo Center.

42* Ao postar o meu primeiro ensaio no BLOG do Paulo Nunes, para evitar desentendimentos “desnecessários” com os gramáticos “normativistas”, logo no início do ensaio inseri um dos meus direitos como ser humano, contido na “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, o seu artigo 1º) diz: Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. E no seu artigo 19º) diz: Todo o homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras.

43* Eu já disse, na carta ao filólogo, que a igualdade mais marcante dos seres humanos é exatamente a diferença inerente a cada um.
Também costumo apregoar a crença, de que o homem é um “Ser” não analisável, por isso, pode-se esperar tudo dos homens, em vista do que: iniciei o ensaio da “CARTA À NINGUÉM”, a ser postada no blog do Paulo Nunes com a citação dos dois artigos da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

44* Sim! Eis a tradução da frase de Baruch de Spinoza:
(1) (Tenho-me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por entendê-las).

45* A meu ver, esta frase de Spinoza representa a maneira de ver o “assunto”, (linguística versus gramática normativa), do professor Marcos Bagno, e esta também é a visão de grandes vultos da literatura mundial. Por exemplo: Rousseau, (Genebra, 28 de Junho de 1712 — Ermenonville, 2 de Julho de 1778), no rodapé, de uma das suas cartas, já dizia: [....] Sei, é verdade, que a primeira regra dos nossos escritores é a de escrever corretamente e, como dizem eles, falar francês: isso resulta de terem pretensões e de desejarem parecer que possuem correção e elegância. A primeira regra para mim, é de que não me preocupo de modo algum com o que possam pensar de meu estilo, consiste em fazer-me compreender. Não hesitarei, sempre que, com o auxilio de dez solecismos, puder explicar-me com maior vigor e clareza. Contanto que eu seja mais compreendido pelos filósofos, de boa vontade deixo aos puristas correrem atrás das palavras. [...]
Rousseau, logo acima destes dizeres, nos brinda com uns versos do poeta romano Horácio: - Se eu pudesse acrescentar alguma coisa, por que haveria de ser invejado, uma vez que a língua de Catão e de Ênio enriqueceu o idioma pátrio?

46* Estes são os versos com a formatação e na língua original:

47* Ego cur, adquirere pauca Si possum, invideor, com língua Catonis Et Enni Sermonem patrium ditaverit?

48* Quintus Horatius Flaccus, (Venúsia, 8 de dezembro de 65 a.C. — Roma, 27 de novembro de 8 a.C.), Catão e Cipião levaram o poeta Ênnio em 204 a.C. para Roma. Como Ênnio dominava três idiomas: o osco, sua língua materna, o grego, em que foi educado, e o latim, falado no exército romano, em que serviu durante a segunda guerra púnica, iniciou ensinando grego. Como professor gozou da simpatia de patrícios ilustres, entre os quais Cipião o Africano, e tornou-se cidadão romano (184 a. C.). Faleceu em Roma e, além da famosa epopéia Annales, onde conta a história de Roma desde os tempos lendários, (da Loba), até seus dias, escreveu também tragédias e poesias de inspiração filosófica e moral e foi introdutor do hexâmetro no latim, o típico verso grego, - Rousseau deve se reportar a este fato histórico, a que se referia Horácio.

49* Ora! Se Horácio, naquela época, já justificava suas acresções de palavras gregas ao latim, era porque sofria críticas, e Rousseau também o fez pelo mesmo motivo. Portanto: nada a temer de críticas de gramáticos, elas são inevitáveis, e sempre existirão... Portanto, façam “OUVIDOS MOUCOS” às críticas, e assim: “Vive la liberté d'expression, aux grammairiens, les haricots”.

50* Meus caros, pacientes e estimados leitores! “Não tomem este escrito como um ataque motivado pela minha força, mas sim, como uma defesa, motivada pela minha fraqueza”.

51* O próximo ensaio será dedicado a quem se lembrar, e identificar o filósofo que disse isso.
Bibliografia: Preconceito Linguístico (o que é, e como se faz) Marcos Bagno, Editora Loyola.

Edimilson Santos Silva Mover
Licínio de Almeida, Bahia, 20 de agosto de 2010
77-99197 9768











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